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Ich bin ein Berliner.

Roberto Henry Ebelt

19.08.2016

Ich bin ein Berliner.

Eu falo inglês e português e sou alemão tanto do lado paterno como do materno. Não aprendi alemão, como seria de se esperar, pois meu pai tinha como padrão seguir as leis do país que o recebeu em 1933. Getúlio Vargas, depois de muito flertar com o fascismo e seu filho dileto gerado na Alemanha de Weimar, o nazismo, tomou a decisão correta e ficou do lado dos aliados. Porém, no Brasil, pessoas que nem sabiam falar português, como os colonos alemães, italianos e japoneses, foram certo dia, em 1942, sumariamente proibidas de falar seus idiomas nativos. O que ocorreu no Brasil em 1942, quando Getúlio declarou guerra ao eixo, é de encabular até mesmo leoneis, alziras e jangos. Leia mais sobre isso em http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/REPORTAGEM-ESPECIAL/405454-SEGUNDA-GUERRA-MUNDIAL-AS-RESTRICOES-ENFRENTADAS-POR-ESTRANGEIROS-QUE-VIVIAM-NO-BRASIL-BLOCO-2.html

Quando eu nasci, em novembro de 1943, em Pelotas, os grupos pseudonacionalistas estavam totalmente sedentos de sangue e meus pais se refugiaram no interior do interior da Princesa do Sul. Embora de descendência alemã, minha mãe era brasileira nata e meu pai, na época tinha um passaporte não-alemão, pois ele havia emigrado para o Brasil de uma cidade livre do tipo Mônaco ou Luxemburgo, de cultura alemã, a saber, Danzig, às margens do mar Báltico. Nem isso ajudou, pois seus olhos azuis e pele clara eram um pecado tão grande quanto, durante séculos, foi o fato de ter pele negra.

Até ingleses, num famoso episódio que ocorreu na Rua da Praia, pouco depois da proibição de falar os idiomas do Eixo ROma, BERlin e TOkio (ROBERTO) quase foram assassinados porque os cultos nacionalistas sanguinários brasileiros não sabiam diferenciar a língua alemã da língua inglesa. Felizmente, um brasileiro culto impediu um massacre de cidadãos britânicos. Por essa razão e provavelmente outras de que não tenho conhecimento, infelizmente nunca aprendi a falar alemão, embora saiba um pouco sobre esta língua, pois, mesmo após a derrota dos nazistas, não se falava alemão em nossa casa por causa do medo de eventuais represálias por parte de fanáticos brasileiros germanófobos.

Isso posto, confesso que, embora soubesse um pouco de alemão, nunca me dei conta de que a famosa frase de John. F. Kennedy, em 26 de junho de 1963, em seu discurso aos berlinenses ocidentais, a saber, ICH BIN EIN BERLINER, foi causa de muitos risos mal disfarçados por parte dos berlinenses ocidentais ameaçados por uma iminente invasão soviético/comunista.

Se quiser ouvir este discurso histórico, do tempo em que os democratas americanos ainda defendiam valores tipicamente ocidentais, o áudio está aqui:

Os risos inocentes foram motivados pelo uso incorreto do artigo indefinido alemão EIN antes da palavra BERLINER. Normalmente, errar na utilização de um artigo em um idioma estrangeiro não causa maiores problemas além de uma certa dificuldade de compreensão por parte da pessoa que lê ou ouve o texto ou discurso. Nunca, até pouco tempo atrás, havia me dado conta do que havia realmente acontecido apesar de saber muito bem que BERLINER PFANNKUCHEN (abreviado para Berliner) é uma iguaria alemã conhecida no Brasil como SONHO DE PADARIA. Veja:

Pois ao usar, antes da palavra BERLINER, que pode ser o adjetivo pátrio – berlinense, o artigo indefinido EIN, a palavra seguinte (berliner) deixou de funcionar como adjetivo pátrio e passou a funcionar como substantivo comum (Berliner = sonho de padaria).

Em alemão a frase a ser dita deveria ter sido ICH BIN BERLINER (eu sou berlinense).

Os risos ocorreram, pois, na realidade, JFK disse EU SOU UM SONHO DE PADARIA, quando o que ele queria dizer era: EU SOU UM CIDADÃO BERLINENSE.

Moral da história: artigos podem ser palavras traiçoeiras.

Leia mais sobre o assunto e a situação em Berlim em 1961 em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ich_bin_ein_Berliner.

Em tempos de abomináveis correções políticas é reconfortante saber que o partido democrata americano, que quando no poder tem condições de infernizar nossa vida aqui no Brasil, um dia foi motivo de orgulho para todos os que se recusam a viver sob a tirania da correção política.

Have an excellent weekend.


Tags: Roberto Henry Ebelt, inglês, artigo, coluna, Ebelt


Roberto Henry Ebelt é professor, escritor, escreveu uma coluna semanal para o Jornal do Comércio de Porto Alegre entre 2001 e 2013, e é diretor do curso HENRY'S BUSINESS ENGLISH desde 1971.

Seu mais recente livro, O QUE VOCÊ DEVE SABER ANTES DE ESTUDAR INGLÊS, pode ser encontrado nas livrarias Disal, Cultura e SBS ou à rua Hoffmann, 728 em Porto Alegre.

E-mail: roberto@henrys.com.br
Fone (51) 3222-3144
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