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Fé ajuda. Tecnologia resolve.

Carlos Mello

02.03.2011

Fé ajuda. Tecnologia resolve.

Interessante a atitude de alguns mineiros chilenos em outubro de 2010, que ao saírem da cápsula de resgate, rezaram em agradecimento por terem sido salvos.

AGRADECER??? Conforme suas religiões, foi o todo poderosíssimo que os colocou lá; é a mesma coisa que alguém com câncer, ficar curado e agradecer a Deus pela cura, como se não fosse ele mesmo o responsável pelo aparecimento da doença através dos seus misteriosos, e é claro que também sempre inexplicáveis, “desígnios”.

O Ser Supremo, que é onisciente, onipresente e muito mais, ou seja: sabe tudo o que acontece e acontecerá, é responsável desde a queda de uma gota de água até o cravar da picada de uma serpente. Então, automaticamente, foi o responsável pelo soterramento de “seus cordeiros”. Mas como não morreram, agradecem. A intenção dele, se não fossem a tecnologia, era matar todos aos poucos (o que não é novidade em se tratando das estórias da bíblia), porque não ficaram somente rezando pela infinita bondade? Se realmente acreditam nesta entidade, porque não confiaram nela?

A Conferência Episcopal do Chile se apresentou dizendo que “o resgate dos mineiros no Chile foi presente de Deus”, e agradeceram a “proximidade espiritual” (essa é nova) do Papa Bento XVI http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=278335

Também apareceu um pastor da Igreja Universal derramando óleo sagrado na mina, agradecendo a graça que sua Igreja havia conseguido visto que tinham rezado pelos mineiros desde o primeiro dia. http://www.gospelprime.com.br/a-igreja-universal-no-chile-em-constante-oracao-pelos-33-mineiros-chilenos/

Em várias capas de revistas, jornais e internet apareceram os “verdadeiros” salvadores dos mineiros através de suas orações. Incluindo o procurador geral do responsável por tudo aqui na terra, o Papa, que recebeu uma bandeira chilena de um mineiro agradecido pelo milagre acontecido. Realmente muito emocionante.

As religiões e seus fiéis usam uma infalível e muito conveniente estratégia, que é mostrar somente a parte que interessa. A vencedora. O mesmo marketing utilizado na propaganda do governo para os seus jogos de azar. Só mostram os pouquíssimos vencedores entre milhões de apostadores. Assim as igrejas, se aproveitando da pouca, ou nenhuma, memória de seus fiéis, mostram “os milagres” e esquecem completamente a parte real, a que mais vezes ocorre.

Quatro anos atrás, em 2006, no México, um desabamento de mina também deixou 65 mineiros soterrados, como o México é um país católico, provavelmente oraram muito por uma salvação milagrosa. Também devem ter aparecido padres, pastores, feiticeiros, etc. por lá, mas de acordo com os “misteriosos desígnios de Deus” não foram atendidas as preces de um país inteiro e os 65 mineiros mexicanos morreram lentamente de sede e inanição, enquanto esperavam por um resgate que nunca veio.
noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/10/12/familias-de-mineiros-mortos-no-mexico-elogiam-o-chile-e-criticam-governo-mexicano.jhtm

Na mina Pike River, na Nova Zelândia em Novembro de 2010, também 29 trabalhadores pereceram.

O Papa e nenhum outro religioso apareceram em qualquer tipo de mídia sorridentes com a bandeira do México ou da Nova Zelândia. Nem por “proximidade espiritual”. Sabem por quê? Porque nestes países a infinita bondade do poderosíssimo não atendeu as desesperadas preces.

Temos que entender que a maioria dos mineiros, e população em geral, são pessoas simples, que sofreram lavagem cerebral desde o nascimento, o que deixa, quando se trata de religião, uma cegueira em relação à racionalidade dos fatos. Não é para qualquer um conseguir pensar fora deste universo, sair dele é mais difícil ainda. Esta catequização fica tão enraizada na mente, que torna quase impossível imaginarem que o Deus bondoso e maravilhoso que lhes foi incutido não viria em seu socorro quando precisassem, e fica uma blindagem que impossibilita questionar o porquê de não ter havido ajuda. Mas a parte boa é super exaltada sem a menor reflexão do que afirmam.

Por exemplo: Quando, em maio de 2009, caiu um avião A330 da Air France entre Rio e Paris onde morreram 228 pessoas, nenhuma entidade religiosa, mídia ou qualquer outro grupo, que sempre se intitulam representantes do super misericordioso, questionou a inexplicável ausência de sua ajuda divina (na verdade bem explicável). Um mês depois um Airbus da companhia aérea estatal do Iêmen, com 153 pessoas a bordo caiu no Oceano Índico e somente uma criança de14 anos sobreviveu. Então vários jornais e revistas colocaram nas capas “Graças a Deus uma criança sobreviveu”. Realmente é de se emocionar com tanta benevolência.

Na situação em que se encontravam os mineiros chilenos, o mais razoável seria acreditar no amigo imaginário, que sempre lhes foi ensinado ser possuidor de um infinito amor, estivesse pensando neles (a parte lógica do cérebro a qual deveria dizer que ele foi quem criou a situação fica esquecida). Claro que nenhum teólogo explica onde estava proteção extra dos “Anjos da Guarda”, que falharam coletivamente, como sempre.

As orações realizadas no fundo da mina foram importantes para os mineiros, até fundamentais para manter a sanidade mental do grupo, pois necessitavam usar a muleta da fé religiosa para terem esperança.

Mas e se eles fossem um grupo de descrentes o que teria acontecido? Exatamente a mesma coisa, isto porque a ajuda através da reza é nenhuma, é só psicológica. A diferença é que os descrentes teriam fé somente na tecnologia, e os crentes no seu amigo imaginário.

Mas na realidade estavam sendo salvos por coisas bem terrenas, como engenheiros, máquinas e sofisticados equipamentos, que não tiveram nenhuma participação de alguma faculdade de teologia na sua construção.

Isto dá uma idéia da resistência que os religiosos tem de aceitar o mundo como realmente é, e que as coisas dependem de nós mesmos, que estamos sozinhos sim.

É inacreditável que em pleno século 21, ainda existam milhões de seres humanos acreditando em estórias, tão infantis e medievais, que nos acenam com amigos imaginários e fantasias consoladoras em outro mundo, como sendo verdades, quando deveríamos deixar as ilusões de lado e buscar as soluções e respostas na realidade e na inteligência através da ciência.

 


Tags: Carlos Mello, artigo


Carlos Mello é formado em Economia pela UFRGS, trabalha com Avaliações Financeiras e Cálculos Periciais. Reside em Porto Alegre.

Email: carlosmello@ufrgs.br
Telefone: (51) 99113-2232




Opinião do internauta

  • Vanderlei (08.09.2011 | 01.47)
    O autor traça lógica naquilo que interessa ao seu objetivo. Eu poderia utilizar muitos outros textos em sentido contrário com conclusões opostas. Por que o autor não tenta explicar muitos dos casos de doenças em casos terminais ``desengados`` por médicos e de repente os pacientes recuperam-se. Converse com qualquer médico que trabalhe em UTIs e com pacientes terminais. Verifiques, por exemplo, numa pesquisa(já que gostas tanto de ciência) da Universidade de Duque do cardiologista Mitch Krucoff sobre o poder da oração. É preciso que tu te informes mais.
  • Alberto Muller (04.03.2011 | 12.21)
    Sou católico e gosto de rezar porque me faz bem. Mas já questionei sobre o resultado prático de uma oração em relação a quem nâo reza, com certeza deve ter alguma diferença, não é possível que Deus trate igual a quem reza e a quem nao reza.
  • Maria Gourgues (03.03.2011 | 16.54)
    O Assunto é interessante porque mostra uma maneira de pensar que não é mostrada nas aulas de catecismo dos colégios. Fico admirada com a lógica do texto. Considero-me cristã, embora não frequente alguma Igreja regularmente. Mas ultimamente estou vendo vários artigos e fico me perguntando. Porque não esclareceram as dúvidas na hora certa? Teria tantos porquês. Gostaria de sugerir alguns assuntos sobre o tema religiões. Maria Gourgues
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