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Carlos Mello
NATAL. Porque Não Gosto.
Eu nunca gostei de Natal, nem quando era criança. E não foi por falta de família, presentes, festas, etc. Noite de Natal nunca me caiu bem.
Sou ateu, mas este não é o motivo de meu sentimento sobre o Natal, se fosse só uma festividade religiosa não me incomodaria, até porque outras datas comemorativas de crendices não me atingem em nada. Apesar de os crentes sempre fazerem sincretismo religioso, na verdade nem religiosa é esta data, deriva de uma festa pagã conhecida por Saturnália, que era realizada em dezembro em honra de Saturno, que era o Deus todo poderoso da época. Isto desde mais de 200 anos antes de Cristo. Também como nascimento de mitos esta data já festejou outros como Tamuz, Deus da Suméria; Horus, Deus egípcio do Sol; Mitra; Átis; Buda; Hércules; Krishna; etc. Todos nascidos coincidentemente em 25 de Dezembro e de mães virgens, como convêm às divindades.
Também não é porque algumas pessoas queridas não estão mais presentes, isto faz parte da vida, até tenho uma família bem numerosa.
É porque no Natal é diferente. É TUDO FALSO.
O falso gelo das árvores. As decorações de péssimo gosto; O falso Papai Noel vestido de pijama vermelho dizendo ser uma pessoa que nem existe de verdade, sempre enganando alguma criança.
A falsa felicidade estampada na cara de quem sai desesperado para comprar presentes. Já viram alguma família sorrir demonstrando tanta felicidade como nas propagandas de Natal? A falsa alegria mostrada nas TVs, geralmente movidas a álcool.
As Falsas promessas, falsos perdões e falsa ilusão de abundancia de presentes e guloseimas.
A falsa data de nascimento de Jesus Cristo.
A hipocrisia de pessoas falando em como ajudar os pobres, tipo “Natal sem fome, doe brinquedos, etc”.
As músicas, todas de baixo astral, como a insípida Jingle Bells ou o especial de fim de ano do Roberto Carlos de uniforme azul e branco, congelado há 30 anos.
O trânsito intenso, a cidade caótica, a hipocrisia dos sorrisos forçados, as ruas, avenidas e estradas tomadas por irresponsáveis bêbados nos volantes arriscando a vida dos outros.
As mensagens de Natal recheadas de clichês, como "Que o espírito do Natal esteja em vossos corações". Que espírito? Este surto de bondade e solidariedade significa ter um ótimo dia 25 de dezembro? Deve ser.
Só isto já seria suficiente para não gostar desta data, mas o que realmente mais me atinge, além da solidariedade transformada em obrigação onde se comemora para não desapontar a família, é a covardia da comparação, principalmente dos adolescentes, quando vêem os presentes uns dos outros e são atingidos pela face cruel da desigualdade social. A tristeza de um pai que não pode dar o que um filho esperava, mas vê outros ganharem, mostrando o abismo que separa realidades.
Sei que se trata de uma questão social, mas isto sempre me incomodou, pois sei que pessoas se esforçam além do possível para comprar presentes, fazendo prestações quase insuportáveis somente para satisfazer uma expectativa forçada pela propagandas enganosas, criando uma obrigatoriedade em dar presentes, o que é uma maldade para quem tem dificuldades e tem que contentar a ansiedade criada em seus filhos para enfrentarem uma exibição desproporcional das possibilidades financeiras.
Neste dia os orfanatos se enchem de presentes, geralmente velhos e quebrados, as casas de geriatria e asilos recebem filhos e netos carinhosos, todos demonstrando muita solidariedade e verdadeiro amor acompanhados por uma comilança indigesta.
Se fosse somente uma festa, mesmo que proporcionasse reavivar as utopias da solidariedade e fraternidade, mas também uma oportunidade de juntar familiares e terem algumas horas anuais de convívio, onde os presentes fossem obrigatoriamente feitos com criatividade, sem valor econômico até seria interessante, isto sob o ponto de vista de quem tem família.
Mas Natal é uma promoção mercadológica quase obrigatória, onde a compra de algum presente é uma exigência de demonstração de afetividade sob pena de sofrer alguma sanção moral e afetiva, transformando o valor do sentimento ao custo do presente.
Esta covarde feição discriminatória de quem pode sobre os menos favorecidos, além de ser uma falta de humanidade, vem acompanhada de também falsas promessas de paz e fraternidade que há muito foram perdidas.
Não consigo achar nada agradável no Natal, nada mesmo. Pois tudo que acham bom no Natal, incluindo a solidariedade, os panetones e 13º Salário, poderia ser muito melhor se distribuídos durante o ano.
Sei que a maioria absoluta gosta, como não sinto obrigação de seguir a maioria, ainda bem que nem todos tem o mesmo gosto, eu não participo de nenhuma atividade no Natal. Geralmente faço alguma viagem curta, preferencialmente de moto, só para passar a data, e sozinho, pois democraticamente entendo que meus familiares festejem à sua maneira.
Acho que o nome deveria ser trocado de Noite de Natal para NOITE da HIPOCRISIA, seria uma atitude honesta pelo menos.
Não é à toa que nesta data tem o maior índice de suicídios do mundo.
Bom Natal pra quem gosta.
Carlos Mello é economista formado pela UFRGS, trabalha com Avaliações Financeiras e Cálculos Periciais. Reside em Porto Alegre.
Email: fazpensar@mello.com.br
Home Page: www.mello.com.br
Telefone: (51) 9113-2232
Opinião do internauta
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Gabriela (25.11.2011 | 19.54)
Concordo com muito com que você escreve Carlos sobre o Natal. Neste período fico triste, acuada, sem graça. Compartilho pouco afetivamente com minha família. filho, se importa mais em ficar com sua nova família e amigos estão bem distantes. Fico louca para que passe logo estas datas de Natal e passagem de ano! -
Maria Gourgues (24.11.2011 | 19.56)
Eu sempre tive um pouco de desconforto com o Natal. Participo mas sentindo um pouco de remorso que não entendia o porquê. Com esta tua cronica me "caiu a ficha". Me fez entender o óbvio. Realmente o Natal é praticamente definido pelos presentes. A solidariedade é só figuração para durar um dia. Muito bom. Parabéns. -
Rudi Maria Cristani (23.11.2011 | 08.09)
Olá Sr.Carlos Fiz uma leitura de sua coluna, bem verdadeiras suas afirmações e seu pensamento a respeito desta data. Com uma certa idade ainda existe em mim um certo apego a mesma, suas comemorações, acompanhada de uma certa revolta. Mas como dizia meu saudoso pai, "eu não tenho culpa, ensinei à vocês aquilo que também aprendi." Há certas coisas que não devemos passar para frente, do tipo ilusões, hipocrisias e sentimentalismo sem fundamento. -
Resposta do Colunista:
Eu também não gosto, tinha uma época que eu ficava sem graça porque participava de uma festa que não era minha. Mas estava presente por causa dos filhos e da expectativa que era criada. Hoje com os filhos criados me sinto ótimo para fazer qualquer coisa que não seja uma janta de natal. Obrigado pela participação Gabriela.
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Resposta do Colunista:
Olá Maria, não estamos sozinhos com este sentimento, nem somos poucos.
Concordo que é só figuração. -
Resposta do Colunista:
Concordo contigo Rudi. Hipocrisias devem fica no passado, existir somente como parte da história.
Obrigado pelas palavras.
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