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Carlos Mello
Cálculos Periciais – CUIDADO
Atuei como professor de cálculos periciais em várias Universidades, em Cursos de Cálculos e em entidades como Conselho de Economia, Sociedade de Economia, OAB, BACEN, etc. Sempre no final se fazia um questionário pedindo alguma crítica ou sugestão e qual a melhor parte do curso. Na maioria das vezes era apontada como a melhor parte, um tipo de prova que eu fazia no final, onde apresentava uma sentença bem simples e solicitava o laudo desta sentença. Após este trabalho mostrava dois outros laudos desta mesma sentença com valores 200% a mais e com 20% do valor correto e pedia para acharem onde estavam os erros.
Era comum eu ter que dar outra aula somente para mostrar, item por item, onde se escondiam os erros, pois achavam difícil encontrá-los. Os que mais se interessavam eram os advogados, talvez por não gostarem muito da área de cálculos.
Tenho laudos com valores de mais de 1000% de erro. São dezenas, não só de peritos mas também de juízes e procuradores, todos podem errar, principalmente em cálculos.
Tenho exemplos como um pedreiro que trabalhou seis semanas para uma conhecida churrascaria na rua Dona Laura em Porto Alegre e o laudo chegou a quase R$ 30.0000,00 em horas extras.
Outro é de uma rádio da cidade de Quaraí onde o primeiro laudo era de R$ 75.000,00 e depois de refeito ficou em R$ 7.000,00.
Ainda um envolvendo calculo de aposentadoria contra Fundação dos Funcionários da CRT (FCRT), que baixou de R$ 48.000,00 para R$ 1.400,00. ou 97% a menos.
Depois de 25 anos atuando como perito, posso assegurar que a maioria dos cálculos apresentados estão corretos, o problema é que não se sabe se o que estamos prestes a receber ou pagar está dentro desta estatística.
Estou mostrando, pela experiência que tenho, que em algum elo da justiça pode haver erro, mas na hora de se mensurar uma sentença é que fica evidente a falha. Mas então o que fazer? Se desconfiar do valor apresentado tem que se procurar fazer uma conferencia, pois um laudo aparentemente transparente e bem feito pode conter erros por descuido, incompetência ou até má fé.
A perícia de cálculos parece, à primeira vista, ser uma tarefa estafante com alguém de óculos pesados que não sai da frente de um computador. Em parte este estereótipo está correto, mas também se participa de coisas bem dinâmicas, principalmente na justiça trabalhista. Alguns exemplos:
Certa vez um diretor de secretaria de uma Junta de Conciliação e Julgamento me pediu o favor de fazer uma vistoria “In Loco” em uma fábrica de sabão em Cachoeirinha, aqui próximo de Porto Alegre, porque a Juíza não estava entendendo o que ocorria com os relatos do processo, então como perito nomeado me dirigi ao endereço indicado. Ao chegar no lugar, um Galpão de uns 200 m2, onde não havia nada que lembrasse uma fábrica, acabei descobrindo a seguinte história:
Uma esperta com sotaque carioca, que se dizia química, estava a procura de um lugar para instalar uma fabrica de sabão, e convenceu o dono do imóvel a entrar de sócio com o lugar e ela com a produção.
O esquema era ela comprar os produtos no Pólo Petroquímico com prazos de pelo menos 90 dias (eles conseguem), fazer o sabão e vender com prazo de 30 dias, então depois de uns 90 dias começaria e entrar de fato o dinheiro a ser repartido. Para isto ela arregimentou 12 pessoas e mostrou seu plano e explicou que todos começariam a receber como sócios da empresa depois destes 90 dias de carência, ou seja, ela fez uma mini cooperativa.
Ela vendeu muito sabão, pois era barato, os funcionários estavam satisfeitos, afinal eram todos sócios de uma excelente empresária.
Depois de 90 dias começaram a exigir o combinado, então a excelente empresária escafedeu-se sem deixar qualquer pista, era também uma excelente salafra.
Esta era a razão da entrada destas 12 pessoas na justiça contra uma misteriosa “empresária”. Quem acabou pagando o prejuízo, que não foi pouco, foi o seu “sócio” dono do imóvel, que não ganhou nada e ainda perdeu o que tinha.
De outra feita, também fui solicitado a esclarecer uma dúvida para uma juíza, porque tudo estava muito mal explicado nos autos. Estas explicações eram mais uma curiosidade da julgadora, porque poderia decidir com o que tinha nos autos, mas queria ter uma visão melhor além do que estava escrito.
A história: Existia uma distribuidora de bebidas na rua Ramiro Barcelos, quase esquina com a Av. Farrapos aqui em Porto Alegre, chamava-se DIBRAH, onde acontecia o seguinte: Chegava toda semana caminhões com bebidas a serem descarregados. Tinha um guardador de carros que, às vezes, se oferecia para ajudar, quando o fazia, lhe davam uma gorjeta. Um dia, em que ele estava ajudando, pediu um jaleco emprestado porque estava com frio. Então um amigo dele bateu uma foto com ele vestindo um jaleco com o brasão da DIBRAH, baixando uma caixa de bebidas onde estava escrito DIBRAH e de um caminhão da DIBRAH. Com esta foto entrou na justiça dizendo que trabalhava na empresa, a foto era a prova (e que prova) pedindo tudo que tinha direito.
No final ele levou alguma coisa, porque a juíza não tinha saída frente “a prova”, mas não tudo que pediu porque era sabido de sua esperta armação contra a empresa.
Isto só para mostrar que existem falsos empresários e espertos reclamantes. Esta é uma pequena dose de uma matéria que daria para escrever um livro só contando estes verdadeiros “causos” da justiça. Existem alguns que são ótimas comédias em matéria de esperteza, tanto de procuradores dos reclamantes, como de sindicatos e empresas.
Atualmente as empresas e a justiça estão mais espertas em relação a golpes, mas ainda assim ainda acontecem.
Carlos Mello é economista formado pela UFRGS, trabalha com Avaliações Financeiras e Cálculos Periciais. Reside em Porto Alegre.
Email: fazpensar@mello.com.br
Home Page: www.mello.com.br
Telefone: (51) 9113-2232
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