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REVEILLON

Erner Machado

13.12.2011

REVEILLON

Rosário do Sul, 1964. Terrível ano; em 31 março acontecera o grande desastre que arrastaria o Brasil para as sombras e os terrores de uma ditadura por duas décadas.

Como para confirmar que uma desgraça sempre atrai outra, naquele ano atingíramos o mais alto grau de pobreza que uma família de sete irmãos – eu era o mais velho – poderia alcançar: meu pai, doente, de dor e de angústia, por tudo ter perdido; minha mãe, doente de um ódio e de uma revolta irreversível. Havíamo-nos mudado para um beco, após a Ponte Seca, onde construímos uma casinha de madeira para nos abrigar e mais ao meu avô, que morava conosco. Ele tinha uma doença na bexiga, o que o impedia de urinar normalmente, obrigando-o, para tanto, não sem grandes sofrimentos, somente através de uma sonda.

Eu trabalhava na lenharia do seu Ataídes Aquino, cortando lenha. A serra cortava a madeira em toras que nós, guris entre os catorze e os dezessete anos, munidos de pesados machados, partíamos em quatro ou seis astilhas que, posteriormente, eram vendidas por cento ou por metro cúbico. Era um ofício que me garantia a comida para o dia seguinte. O expediente findava às seis da tarde, o que me permitia frequentar a quarta série no Ginásio Plácido de Castro.

Meu pai, embora houvesse perdido tudo que de material possuía, conservara alguns relacionamentos fieis de sua época de fazendeiro. Em nome destas relações, ele falou com o Ari Josende, conceituado contínuo externo do Banco da Província, e pediu-lhe que me indicasse para ocupar uma vaga que havia sido aberta em razão da dispensa de um primo meu que fora trabalhar em uma empresa de engenharia que estava construindo a BR 290. Enquanto a minha admissão era estudada, através de investigação profunda da minha conduta nos meus já vividos 17 anos, eu continuava trabalhando na lenharia.

Em 15 de outubro de 1964, um dia que ficaria marcado em minha vida, fui chamado ao Banco e admitido nas funções de Contínuo Externo Contratado, percebendo um Salário Mínimo mensal de remuneração. Vizinhos e parentes, a partir de então, diziam que o “Guri” do Napoleão estava arrumado na vida. Bancário, naqueles tempos, era uma profissão altamente reconhecida e valorizada.

Com o tempo, sobrepusemo-nos àquela condição de miserabilidade. Tínhamos a garantia da alimentação, a farmácia para os remédios do meu avo; sobrava até para a compra de algumas roupas para mim, para meus irmãos e irmãs.

Concomitantemente, o tempo, sem que percebêssemos, voava. Breve chegaria dezembro e, com ele, o final dos estudos no ginásio e a formatura.

Por ter conquistado o primeiro lugar, o pessoal do Banco me presenteou com um traje para que eu pudesse participar da cerimônia. Inesquecível! Toda a minha família e até minha madrinha se fizeram presentes. Lembro meu pai, que ficara no fundo do salão, me olhando; sonhava, quem sabe, que o filho se transformasse, algum dia, num grande homem. Fomos, todos, naquela noite, muito felizes.

Logo vieram as comemorações do Natal e Ano Novo. No dia 31 de dezembro, o Álvaro Xavier decidiu fazer um churrasco em sua casa, convidando todos os colegas do Banco da Província. Feliz por participar de um reunião festiva com meus colegas e suas famílias, comprei roupas novas: camisa “Volta ao Mundo” e calças de Nycron. Somente os sapatos não eram novos. Era um par de “Passo Doble”, que o banco me dera para fazer o serviço de rua. Apesar de usados, estavam brilhando, muito lustrados. Sempre gostei de sapatos limpos. Minha madrinha dizia que se o sapato estivesse limpo o homem estava bem vestido.

O churrasco começaria cedo da noite. Após, todos iriam para os bailes do Reveillon, ou no Comercial, ou no Caixeiral, clubes dos quais muitos funcionários do Banco da Província eram sócios. A carne tenra e o chope generosamente gelado deleitavam os convivas. Aquela seria, pois, a noite de minha iniciação na arte de beber.

Ao final do churrasco o Álvaro, já bastante “alto”, gritou:

– Vamos pro Caxeiral, e o Guri vai conosco!

Meio constrangido, mas feliz pelo convite, fui forçado a admitir que não poderia ir. Primeiro, porque não era sócio, segundo porque não estava vestido como deveria, ou seja: de traje.

Foram em vão as minhas recusas. Quando percebi, estava no meio de quatro casais que, junto com o Álvaro, insistiam para que eu os acompanhasse ao Clube. Um misto de medo e de curiosidade tomou conta de mim. Seria o meu primeiro baile em um clube, e logo um Reveillon.

Baile de Reveillon! Este nome possuia um poder mágico na cidade. Todos se preparavam para esta festa de final de ano. As orquestras eram excelentes. Naquela noite, o baile seria abrilhantado por Norberto Baldauf e seu Conjunto. E eu estaria lá! Como era bom ser bancário.

Ao chegarmos na portaria o Álvaro Xavier informou que eu era seu convidado, e que iria entrar. O porteiro respondeu que não poderia decidir sozinho.Teria que chamar o presidente. O presidente era cleinte do banco e me conhecia bastante. Lembro-me que ele era um homem muito alto. Naquela ocasião, trajava um smoking preto, a gravata borboleta da mesma cor, sobre uma camisa de linho extremamente branca.

A conversa foi rápida. Álvaro Xavier reiterou que eu era seu convidado e, embora fosse um guri pobre, pertencia a uma boa família. Além disso tudo, era bancário e seu amigo.

O presidente fora por demais objetivo: chamou o Defunto, um garçom que também era meu amigo, e determinando que ele se colocasse ao meu lado, dirigiu-se para o Álvaro Xavier:

– Alvaro, veja como o garçom está vestido e veja como o Guri se veste. O garçon está de Smoking, e o Guri está de camisa “Volta ao Mundo” e com sapatos “Passo Doble”. Me desculpa, mas assim, nem de garçom ele entra. Sei que ele é um bom Guri, mas é uma questão de postura social.

Não esperei pelo fim da conversa. Abracei o Álvaro Xavier, desejando-lhe um Feliz Ano Novo e sai lentamente pela Rua Amaro Souto. Dobrei na João Brasil e, quando me dei conta, estava no Bar do Oswaldo.

Entre silenciosas lágrimas pedi ao garçom, o Pata Choca, que fora meu colega no “colégio do padre”, que me servisse um Samba no capricho. Bebi este e mais outros tantos, dos quais perdi a conta. Lembro-me de que aquele fora o primeiro porre da minha vida. Depois, vieram outros...

Nenhum, no entanto, em razão de tamanha tristeza, dor, humilhação e mágoa de não ter podido entrar no que seria o meu primeiro Baile de Reveillon no Clube Caixeiral de Rosário do Sul onde, me defrontei com as diferenças que existem entre um garçom que vestia smoking e um guri de 17 anos que trajava camisa “Volta ao Mundo”, calças de Nycron e sapatos “Passo Doble”.........


Tags: Erner, artigos, textos


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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