Últimas notícias

Colunistas

RSS
Dona Seca

Erner Machado

20.12.2011

Dona Seca

Está viva, ainda, a dona Bagui. Há coisa de dois anos a vi na Protásio Alves, pegando um ônibus.

Ficou conhecida, em Rosário do Sul, como a Dona Seca.

Na verdade esta alcunha lhe veio por ser, desde a mocidade, extremamente magra. Dizem que quando pequena os pais fizeram de tudo para tentar deixá-la mais rechonchudinha, mas foi em vão.

Ficou menina moça, ficou moça e adulta. E quanto mais crescia em altura, tornava mais pronunciada a sua magreza.

Junto com a magreza cresceu, também, um gênio terrível e principalmente explosivo quando algum interlocutor mencionava alguma coisa que lembrasse a sua condição física.

Qualquer palavra tipo: palito, poste, fio, pluma, mesmo que dirigida a outras pessoas e, que acidentalmente, ela ouvisse já era motivo suficiente para uma explosão de impropérios por parte da dona Bagui.

Como todos os rosarienses, dona Bagui, viajava muito para Rivera, cidade fronteiriça, gêmea de Santana do Livramento, para fazer compras dos mais variados produtos, quando o peso se encontrava desvalorizado, com relação a nossa moeda.

O meio de transporte era o ônibus. E Rosário do Sul tinha o ônibus do Ocir.

O Ocir tinha o apelido de Fóm-Fóm, pois a cada esquina buzinava de maneira continua para avisar que o ônibus ia passar e os passageiros deveriam embarcar.

Numa destas viagens, em um dia qualquer de um mês de janeiro de 1965 a dona Bagui estava entre os passageiros.

O ônibus, com destino a Santana do Livramento, saia de Rosário do Sul, com a metade dos bancos ocupados e ia enchendo, a medida que passava pelas estâncias que existem entre as duas cidades.

Em quase todas as porteiras de fazendas, tinha um passageiro esperando. Cada um que entrava, pagava a passagem, cumprimentava o Ocir e os demais passageiros e sentava-se no seu banco, ou ficava em pé, se os lugares já estivessem todos tomados.

E a conversa rolava solta entre os passageiros. Os assuntos os mais variados. Vacinação de gado, marcação de terneiros, eleição para as prefeituras, crise na pecuária, mas todo o mundo se cuidando para não falar da longa estiagem que maltratava os campos da pampa gaúcha, porque todos viam sentada no primeiro banco a dona Bagui, a qual parecia, pelo olhares felinos que lançava aos outros passageiros, que estava esperando que isto acontecesse.

A coisa de cem metros o Ocir avistou numa porteira o velho gaúcho Atabila Hurtado, gaudério, dos mais conhecidos na campanha e em Rosário do Sul, pelo seu costume de falar pelos cotovelos. Fez sinal, com o chapéu para que o ônibus parasse. Como o Ocir vinha em certa velocidade foi obrigado a frear, de maneira brusca dando um susto nos passageiros e levantando uma nuvem de poeira envolvendo, completamente, o seu Abatila, o qual tão logo a porta foi aberta, adentrou ao veículo, batendo com o chapéu nas bombachas e na camisa com o intuito de livrar-se da poeira que ficara em suas pilchas.

Pagou a passagem e deu uma descompostura no Ocir pela forma brusca de parar o ônibus.

Como não tinha mais lugar no ônibus ficou quase junto com o motorista e ao lado da dona Bagui.

E a conversa continuava, sobre os mais variados assuntos. O seu Atabila começou falando da aftosa, das carreiras de cavalos do domingo anterior, e até que desprevenidamente saiu-se com a frase que todos estavam temendo ouvir: Mas me digam uma coisa, se é que alguém pode me dizer! Até onde vai esta Seca desgraçada?

- Silêncio mortal. Dava para se ouvir uma mosca voando dentro do ônibus, mesmo com o motor ligado.

De imediato e sem tempo, para qualquer explicação que esclarecesse a referência feita, a dona Bagui, respondeu:

- Vou para Livramento, comprei passagem com o meu dinheiro e não devo satisfação a qualquer grosso, ordinário, conversador e mal educado como tu.

Estabeleceu-se a balburdia entre os passageiros que tentavam explicar a real significação do que o seu Atabila havia falado, todavia sem obter resultados.

Dona Bagui, a esta altura já estava agredindo o seu Atabila com uma sombrinha preta.

O seu Atabila ao tentar se defender caiu por cima do Ocir que foi obrigado a fazer uma manobra arriscada, quase virando o ônibus.

Com muito trabalho, a dona Clotilde que era Diretora do Colégio Santa Terezinha e, por isso, pessoa de muita respeitabilidade conseguiu acalmar a dona Bagui e explicar que o coitado do seu Atabila se referia, mesmo,à grande estiagem que já assolava a fronteira há trés meses. A dona Clotilde, teve a sensibilidade de usar o termo estiagem ao invés do termo seca. Por habilidosa inteligência!

A Dona Bagui, se acalmou, mas não se desculpou com o seu Atabila e ainda o ameaçou de lhe dar mais umas “sombrinhadas “ se ele lhe dirigisse o olhar.

O Ocir, conseguiu reconduzir o ônibus na estrada, novamente, colocou a plaqueta de LOTADO, no para brisa e não parou em mais nenhuma porteira, para evitar qualquer possibilidade de novos incidentes.


Tags: Erner, artigos, textos


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




Opinião do internauta

Deixe sua opinião

Comemoramos hoje - 18.09

  • Dia de Santa Sofia
  • Dia do Anjo Aniel
  • Dia dos Símbolos Nacionais