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PEÕES DE ESTÂNCIA

Erner Machado

27.05.2015

PEÕES DE ESTÂNCIA

Ontem tivemos um clima, em todo o Estado, com muita chuva, e com muito vento que durou todo o dia. Hoje a chuva deu uma calmada mas continuamos com um vento, vindo do Norte, que traz, consigo, um frio de “renguear” cusco como se diz lá na fronteira.

Não sei porque, ontem e hoje, me lembrei dos peões de Estância. Me lembrei, talvez, porque esta classe de trabalhadores da Pampa é a que mais sofre com as invernias que se abatem, sobre o Rio Grande, todos os anos. Os Peões de Estância o sejam a “seco” ou a “mantinido” levantam quase sempre as quatro ou cinco horas da manhã para fazer um fogo de chão onde aquecem suas águas e, ao redor do qual preparam o seu chimarrão e os seus desjejuns que são constituídos por algum pedaço de sangrador assado acompanhado por um café fraco, passado direto em um coador dentro da cambona ou queimado com tição de aceso para que a borra fique no fundo...

Enquanto uns preparam este ritual do galpão outros vão recolhendo as vacas para a mangueira e soltando os terneiros para apojarem as tetas e assim facilitarem o leite baixar para ser retirado e coletado em latas ou galões de Querosene. Outros vão buscar os cavalos no potreiro ou “piquete” para encilhá-los de forma a que quando dia já estiver clareando, os pingos já estejam preparados para a lida que se estenderá até ao meio e que, após uma modesta refeição e uma sesteada nos pelegos, recomeçará à tarde se estendendo até a noite....

Esta rotina é diária, de segunda a sábado... E se faz frio os ponchos velhos e furados, os pés descalços ou enfiados em alpargatas, chinelos de couro ou, raramente, botas surradas, permitem que os ossos congelem, que o nariz pingue, que os acessos de tosse sejam constantes...

Se chove as abas dos velhos chapéus pingam a água, como se fossem goteiras, que se derramam em água sobre o pescoço, sobre os braços, sobre o corpo, rindo do infeliz que se encharca por fora com a água da chuva e por dentro com as lágrimas que se represam por que desaprendeu de chorar.

Ao fim da noite, estão exaustos e buscam no chimarrão, antes da janta, uma forma de aquecerem seus peitos. Alguns se encharcam de cachaça, na esperança de anestesiarem seus corpos e acalmarem a dor de suas almas e de seus corações por não conseguirem sair da rede trançada de miséria e dor em que foram aprisionados.

Por cruel fatalidade nascem, vivem e morrem como peões de estancias e os seus destinos são algum cemitério de campanha, enterrados em alguma cova rasa com uma cruz de maneira, sem direito a qualquer referência a seus nomes ou apelidos.

Não sei por que me lembrei deles, nestes dois dias deste quase findo maio de 2015. Mas lembrei e deixo-lhes, um verso, pobre como eles, mas que testemunha as suas reais condições, de vida e morte.

Embora tenha constância,
Embora seja Capaz,
Quem nasceu pra peão de Estância,
Nunca chega a Capataz.....


Tags: Erner Machado, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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