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ACAMPAMENTO FARROUPILHA

Erner Machado

20.09.2015

ACAMPAMENTO FARROUPILHA

            Quem passa pelo Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, nos fins fim de agosto, início de setembro, já pode ver os Ranchos dos Tradicionalistas, que estão sendo levantados e que ficarão ali, até após ao vinte de Setembro.

            Desde que cheguei em Porto Alegre, e isto já faz muito tempo, que a cidade assiste aos amantes do tradicionalismo migrarem do seus apartamentos e casas, da capital, grande Porto Alegre e até do interior do estado, para reviverem em um ambiente tipicamente campeiro, os usos e costumes de seus antepassados.

            E ali se levantam galpões que reproduzem a arquitetura do pampa, das grandes estâncias e do meio rural, inclusive com a estrutura social do Patrão, da Patroa, das Prendas, do Capataz e dos peões que caracteriza o CTG.

            Na estratificação social da Campanha, o patrão ficava na Casa Grande e o galpão era destinado aos peões.

            Na mesa da casa grande nem o Capataz tinha lugar.

            Nos galpões, às vezes, não tinham mesas.

            As refeições eram preparadas em fogões separados.

            Os patrões tinham o seu alimento preparado na cozinha principal em fogões próprios e os peões tinham a comida feita num fogo de chão, no galpão, utilizando-se panelas de ferro, penduradas em trempes sobre o fogo de lenha de guajuvira, aroeira, ou outra madeira qualquer.

            A comida dos peões era arroz carreteiro, com charque de barrigueira, ensopado de mandioca com espinhaço de ovelha, feijão preto e, raramente, algum sangrador assado pela manhã, que era comido com chimarrão antes de saírem para a lida campeira.

            Quando havia um churrasco, em uma ocasião especial os patrões desciam os degraus da Casa Grande e se misturavam com a peonada guardada, é lógico, a tradicional distância que a hierarquia rural, naturalmente, estabelecia e ainda estabelece.

            A representação que ora os gaúchos fazem é, pelo menos, mais democrática e mais igualitária.

            Ficam todos no mesmo espaço físico, comendo do mesmo fogão,na mesma mesa, tomando a mesma bebida, ouvindo a mesma música e dançando a mesma dança.

            As comidas típicas são produzidas e servidas com muita originalidade e fartura. A música gaúcha, a dança, e todas as manifestações culturais de nosso Rio Grande do Sul encontram, ali, campo fértil e propicio para serem exercitadas.

            A atração é tanta que já é conhecida em quase todos os estados do Brasil e quando encontramos um brasileiro de outros pagos, o acampamento dos Farroupilhas é sempre assunto a ser comentado, positivamente.       

            A exemplo de todos os gaúchos nós, também, temos muito orgulho destes costumes e da magnitude que o acampamento assume, tendo a sua apoteose no desfile de vinte de setembro.

            Todavia, para o observador mais detalhista, nos últimos anos a geografia daquela área, periférica ao centro de Porto Alegre, tem nos apresentado alguns paradoxos.

            Explico, pois!

            Bem em frente ao Acampamento, onde são construídos com esmero ranchos de primeiríssima qualidade, onde tem fartura de comida de todos os tipos, onde são tocadas músicas das mais autenticas do nossos pago, onde são tomadas as bebidas mais variadas, desde a cachaça de Santo Antonio, até   algum uísque estrangeiro, cervejas e vinhos de garrafão e, também, de marcas mais tradicionais, onde os gaúchos exibem os seus melhores trajes, seus melhores pingos, está construída a Vila Chocolatão.

            Ali, entre a suntuosidade arquitetônica ostensiva e permanente dos Prédios da Justiça Federal, da Receita Federal, da Câmara de Vereadores, da Churrascaria Galpão Crioulo e o Acampamento dos tradicionalistas, que surge anualmente, está estabelecida a mais cruel das misérias a que pode ser submetida a pessoa humana.

            Abrigos de papelão, de pedaços de caixa de madeira, de lata, de plástico, dão guarida a famílias inteiras que vivem na promiscuidade e cuja fisionomia e anatomia extremamente magras, nos indicam que o alimento, ali, é uma raridade.

            Por ser uma área próxima ao rio Guaíba as ruelas internas que separam os toldos estão sempre cheias de barro produzindo, com certeza, doenças em crianças, adultos e velhos.

            Ali impera a Lei do mais forte e se cometem os crimes mais atrozes que se pode imaginar.

            Ali impera a lei da selva. Ali os cidadãos são de outra categoria. Algo assim como “Párias da Solidão” no dizer de Jaime Caetano Braum quando se referia ao peão de estância, o que trabalhava a “sêco”  ou “mantinido”  o que no fim dava na mesma coisa, pois os dois tipos de remuneração produziam, igualmente, miseráveis.

            O povo da Vila Chocolatão, está abaixo econômica e culturalmente de qualquer estratificação que se possa imaginar.

            E por estar abaixo desta linha real de miséria, com toda a certeza deve causar constrangimento ao povo Gaúcho que se encontra no acampamento, como causa a nós, transeuntes de todos os dias.

            E tenho certeza que na alma altaneira do gaúcho que se encontra no acampamento, quando olha a Chocolatão, ficam muitas perguntas no ar. Entre elas a de que o sonho de liberdade, de igualdade e de fraternidade, que Bento, Souza Neto, Garibaldi e todos os farroupilhas imaginaram está longe de ser alcançado, pelo menos no interior da vila Chocolatão.

            Mas todavia, a vila Chocolotão dá autenticidade a cena campeira.

            No Conforto, no abrigo, na abastança, nas festas, na fruição do prazeres, no tinir do metais, o acampamento farroupilha representa a elite rural de nosso povo.

            Na miséria, na pobreza, na inexistência de sentido da vida, na escravidão da extrema penúria, a Vila Chocolatão representa o peão de estancia que servia para proteger a casa grande, cuidar dos cavalos, do gado, dos porcos e morrer, se necessário, para defender a causa que lhe apontava o patrão mas, que a exemplo, do povo da vila Chocolatão, não tinha acesso a casa grande, e tendo por cama somente os seus pelegos, dormia nos velhos galpões cheios de picumãs e de fumaças produzidos por alguns paus verdes queimando, secularmente.........!

Porto Alegre, 01 de setembro de 2006.


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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