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Flores de papel crepom

Erner Machado

02.11.2015

Flores de papel crepom

Neste dia dois de novembro de 2015, no silencio de mim mesmo estou, agora, revirando velhas coisas que o tempo não apagou. E me encontro, guri, na frente do Cemitério, em Rosário do Sul sob o sol forte e sofrendo com o vento norte que neste dia soprava, com um balaio de vime cheio de flores de papel que minha mãe fazia para vender aos familiares dos mortos que ali estavam enterrados.

Para que no dia tivesse um bom estoque era preciso começar o trabalho, ainda no mês de outubro mais ou menos pelo dia 20. Minha mãe ia no armazém e comprava centenas de folhas de papel Crepom das mais variadas cores e utilizando-se somente de uma tesoura ia cortando as folhas em forma de pétalas de tamanhos pequeno, médio e grande e com uma habilidade ímpar, ia construindo com suas mãos as mais variadas flores. Rosas, copos-de-leite, lírios, bem-me-quer, violetas e adálias.

Depois, as ia agrupando em uma haste de arame, as rosas uma a uma e a outras de duas em duas ou até mais, de forma que viraram lindos buquês semelhantes a flores naturais.

Quando as flores estavam prontas a minha mãe preparava diversas panelas que, em cima do fogão a lenha recebiam uma quantidade de breu sólido que depois de aquecido era misturado às essências que iriam dar perfume correspondente às flores.

Assim o fogo de lenha mantinha em estado líquido o breu com essências de rosas, de copos-de-leite, de lírios e de bem-me-quer. Algumas vezes a minha mãe mergulhava uma rosa na panela errada e tínhamos uma rosa com perfume de lírio ou de adálias.

Era uma exótica rosa que era vendida assim mesmo, porque não podia se perder a flor. O breu logo secava e dava a flor uma forma brilhante, petrificada e estranhamente perfumada e que se fosse tratada com o devido cuidado chegava a durar seis meses.

No dia dois de novembro lá estava eu com o meu balaio cheio de flores e em roda de mim, dezenas de pessoas que escolhiam as flores segundo, diziam elas, à preferência de seus entes queridos.

Havia vez, quando o tempo estava bom que eu voltava para casa as dez horas com encomendas especiais para serem entregues aos clientes pela parte da tarde.

As preferidas era as rosas vermelhas que rendiam, para minha mãe um bom dinheiro. Na primeira hora da tarde lá estava eu com o meu balaio cheio, de novo...

Me lembro da beleza daquelas flores e do carinho e arte com os quais a minha mãe as fazia. Me lembro da admiração das pessoas que, ao vê-las mesmo que estivessem portando flores naturais eram levadas, por estranhos motivos, a comprá-las para oferece-las aos seus mortos. Eram, realmente, belas flores que duravam mais que as flores dos jardins.

Na minha alma e no meu coração elas estão presentes até hoje e o seu estoque não se extinguirá e, de vez em quando, apanho uma do meu velho balaio de vime e oferto, com saudade para os meus que partiram, dobrando a esquina da vida e entrando no caminho do Eterno...


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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