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Antonio Novo (da série Tipos de Rosário do Sul)

Erner Machado

10.03.2016

Antonio Novo (da série Tipos de Rosário do Sul)

O Seu Antonio Novo foi um dos tantos personagens que compuseram o cenário de minha infância e a de milhares de jovens de minha Terra.

Não sei quando recebeu este apelido mas contava-se que o chamavam assim porque – Paradoxo Popular- era muito velho, tinha a cabeça muito branca e ninguém nem ele mesmo sabia a sua idade.

No tempo em que o conheci era um gaúcho que se empregava de Peão Caseiro e ficava pelas estancias levantando muito cedo,  fazendo fogo de chão e preparando  o chimarrão da manhã que era servido de mão em mão nas madrugadas da Pampa.

 Quando jovem tinha sido um bom ginete, um bom peão tropeiro... hoje  o peso dos anos, embora continuasse ágil, lhe reservava as tarefas de varrer o galpão, buscar água de pipa, assar algum sangrador para o café da manhã... e nas marcações capar algum terneiro com uma faquita muito afiada.

O que chamava a atenção eram os seus longos silêncios, que despertavam a atenção dos peões, dos donos da fazenda e dos visitantes que viam, nele, uma figura singular.

Uma boina preta, uma bombacha larga, umas alpargatas surradas, um cinto com fivela de prata e ouro, uma carneadeira atravessada na cintura, um nariz pontiagudo e longos bigodes brancos, compunham o personagem de um velho gaúcho que se negava a morrer.

 Conheci o seu Antonio Novo, no momento em que ele fazia, na cidade, uma casereada para o seu Fautino Vasconcellos. A tardinha fazia um chimarrão sentava, num banco de três pernas e ficava ali na frente da casa da rua Independência, com olhos muito vivos e cuidando tudo e todos que passavam.

A gurizada, muito respeitosamente, sentava com ele na esperança de que rompesse o silencio e contasse alguma história. Um dia me ofereceu um mate. Feliz, peguei a cuia e sorvi com ares de gente grande. Ao final ronquei a cuia e devolvi, com a mão direita respeitosamente. Rompendo o silencio ele respondeu:

- Muito bem! Pois eu não tomo mate com homem que não ronca a cuia...

O seu Antonio segundo todo o mundo falava tinha uma particularidade. Era um Ladrão nos moldes antigos e com atuação   até consentida pelos seus amigos de então.

Diziam que roubava um cavalo em Rosário e o vendia para um fazendeiro em Livramento. Posteriormente visita o dono do cavalo e lhe dizia: Olha meu amigo, eu tropeando por Livramento vi em uma estancia o seu cavalo malacara... Estava gordo e são de lombo. Se amigo me der alguma gratificação eu busco para o senhor, ainda neste fim de semana. Mas só me pague quando eu trouxer o pingo... De noite, ia na fazenda, roubava cavalo e de madrugadita já estava tomando chimarrão na fazenda do antigo dono e com o pingo atado no cabresto em um palanque na frente da estancia. Quando o fazendeiro levantava, apresentava-lhes os agradecimentos, lhe pagava e o seu Antonio Novo, se mandava na estrada real, para outras lidas... para outros pagos onde tinha que atender outros clientes e fazer outros serviços..

Dizem que certa vez, já tendo avançada idade, foi preso pelo seu Pelagio dos Santos, nosso Delegado. Na frente do seu Pelágio e do seu Mendes, que era o nosso Inspetor de Polícia e Escrivão, manteve o silencio e dignidade que lhe eram peculiares. Respondeu, com poucas palavras as perguntas e assinou com o polegar a Nota de Culpa. A final o seu Pelágio teria lhe dito:

- Antonio Novo: diante de tudo o que tu fizestes nestes anos todos, na cidade e na campanha eu não tenho alternativa a não ser te mandar para a Casa de Correção em Porto Alegre!

 O seu Antonio Novo, levantou a cabeça, ajeitou a boina preta, colocou o dedo em riste e , bem devagar saiu do seu silêncio e disse:

- Delegado Pelagio Santos que eu conheci guri, brincando nestas ruas, que é casado com uma senhora descendente do Cel. Garibaldi Tomasi, que me devota cara e antiga amizade!! Hoje por sorte sua e por desgraça minha sou seu prisioneiro... Lembre-se, sempre, que o senhor vai mandar este velho Gaúcho para o Lugar aonde vão os Homens!!!

 Levantou-se virou as costas e pediu para ser conduzido para cela aonde ficaria.

Nunca me contaram se o seu Pelágio o mandou para a Correção. Nem me contaram quanto tempo o seu Antonio Novo ficou preso. Mas, por mim, suspeito que não foi por muito tempo... Pois tinha muitos serviços a fazer, ainda...

Me contaram que um emissário do Cel. Garibaldi Tomasi, num fim de tarde, sob os olhares desconfiados do seu Mendes,  levou-lhe um pacote de Erva Missioneira e  um rolo de fumo em rama, comprado junto com as palhas lá no armazém do seu Tininho Monte, que ficava perto da Delegacia...


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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