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O Casamento

Erner Machado

11.03.2017

O Casamento

Rosário do Sul, era uma cidade típica da fronteira gaúcha, onde existiam, lá pela década de quarenta, os famosos “coronéis” donos de gente e de gado.

Com as Gentes eles mantinham numa relação de semiescravidão onde os homens trabalhavam na forma de “mantinidos” ou seja pela comida e as mulheres ganhavam algum trocado por serem empregadas domésticas, cozinheiras ou lavadeiras de roupas  dos patrões , das patroas e das famílias

Os gados eles os vendiam para a Cia Swift o que lhes garantia a manutenção das fazendas por todo o ano.

É neste cenário mais rural do que urbano que as pessoas nasciam, cresciam, se casavam, tinham filhos e filhas que eram encarregadas de tocar a roda da vida... mantendo as tradições.

Neste tempo os pais escolhiam entre os demais, da mesma tradição, de honra e de haveres, as moças e os moços que iam, entre si, constituírem famílias, através do casamento civil e religioso.

Não foi diferente com o Fidêncio e com a Alzira. Ela filha do Coronel Estácio e ele, do Dr. Dilermando, famoso médico da cidade, cuja atuação profissional se estendia de Rosário a Cacequi, Dom Pedrito, São Gabriel e Alegrete.

O Casamento fora acertado quando o Fidêncio tinha quinze anos e a Alzira doze. Agora, quando completavam vinte e cinco e vinte e dois anos, respectivamente, chegara a hora de constituírem família pelos laços sagrados do casamento.

Os preparativos foram os mais completos, possíveis. Os convites para sociedade de Rosário e das cidades vizinhas já tinham, com antecedência de 6 meses, sido expedidos em nome dos pais e dos noivos.

O mês escolhido foi maio, por ser o mês da noivas e o dia cinco, por ser a data de casamento  do coronel Estácio com a dona Maria de Lourdes.

O pai do noivo mandou buscar, de Rivera, toda a sorte de bebidas estrangeiras, com destaque para os uísques mais caros e para as champanhes mais famosas.

O pai da noiva mandou carnear quatro vacas, dois porcos, perus e galinhas, e no pátio da casa da cidade mandou fazer um churrasco que ficaria como uma marca da hospitalidade com a qual a família distinguia aos seus amigos e convidados. E, com certeza, seria lembrado por muitas e muitas gerações.

Das oito horas da manhã às 17 horas do dia cinco de maio a cidade parecia uma metrópole tantos eram os convidados que chegavam em carros Ford com motorista, ou   de ônibus. Muitos dos convidados do interior de Rosário do Sul, chegavam à cavalo e alguns que tinham família grande chegavam de carretas puxadas por juntas de boi.

As 18 horas, a Igreja do Padre Ângelo Bartelli, estava preparada para receber os noivos que iam casar-se, primeiro no Religioso e depois no Civil, como era tradição das famílias religiosas e da alta sociedade de Rosário.

O casamento seria às 18:30 e para dar um toque de finesse ao ato, ali encontrava-se uma Freira que comandava o coral composto pela Dona Otília e pela dona Anita Giribone, e mais algumas devotas do Padre Ângelo. O Coral, naquele momento, cantava Ave Maria...

Como manda o Ritual, o noivo já se encontrava no Altar.

Formando um semicírculo, que tinha como centro o Padre Ângelo, estavam dispostos as testemunhas de ambos os nubentes.

Pelos trajes dos homens e das mulheres, podia-se deduzir que eram os expoentes da mais alta sociedade Rosariense.

A porta aberta da Igreja Matriz, dava para a praça, de onde a população podia ouvir, as notas harmônicas da canção que se propagava pelo entorno da Igreja.

Eram exatamente dezoito e trinta quando uma carruagem estilo imperial, puxada por dois pares de cavalos brancos, parou na frente da Igreja e dela desceu Alzira, com um vestido branco. Emoldurava o seu rosto, um véu que era seguro, no alto da cabeça, por uma singular grinalda de diamantes que, brilhavam aos raios derradeiros de sol e produziam estranhas luzes, intermitentes.

O seu pai, que a conduzia lentamente e em passos silenciosos, chegou ao altar com um estranho sorriso nos lábios que desapareceu quando estendendo o braço entregou para o Fidêncio de forma que ela ficasse segura pelo braço esquerdo do futuro genro.

E o Padre Ângelo, tomou conta da cena. Como sempre, fez uma breve saudação aos pais da noiva e do noivo enalteceu o que o casamento, ora celebrado, significava para Rosário do Sul e deu início a Cerimônia.

Após as citações ritualísticas necessárias dirigiu-se a Alzira e perguntou: Aceitas a Fidêncio como teu legitimo marido, jurando ser-lhe fiel até que a morte os separe? A resposta foi um grande sim, que teve o condão de colocar um sorriso nos lábios de cada um dos presentes.

De igual forma fez, a mesma pergunta a Fidêncio. Fidêncio estava calado com o olhar perdido em direção ao altar onde encontra-se uma moça, vestida modestamente. No colo uma menina ainda bebê...

Inebriados com a beleza do cenário, nenhum dos presentes, na Igreja, tinha visto aquela moça entrar.

E o Padre Ângelo já irritado repetiu a pergunta pela segunda e pela  terceira vez e Fidêncio calou-se!

E sem dizer nada largou o braço de Alzira e dirigiu-se para o lugar onde estava a moça, e tomou a criança nos braços e, silenciosamente, iniciou a descer o altar. Alzira chorava. Um profundo silêncio se estabeleceu na igreja.

O Silêncio, somente foi quebrado pelo som de três tiros, disparados pelo revolver Smith Wesson, do Coronel Estácio que projetaram Fidêncio sobre os degraus do altar caindo, já morto, aos pés do Padre Ângelo. A criança caiu chorando, mas ilesa, e foi agarrada pela jovem que abraçou-se ao corpo de Fidêncio, formando com ele e a menina uma estranha escultura que movia-se pelos espasmos dos prantos e dos gritos.

O Dr. Dilermando e a mãe de Fidêncio se amontoaram sobre o corpo do filho, sobre a moça e a criança e choraram, silenciosamente.

Dona Maria de Lourdes abraçou Alzira e gritou chamando o coronel Estácio de bandido, de assassino.

O Padre atirava agua benta sobre Fidêncio e rezava um pai nosso como querendo buscar as bênçãos divinas para consolar os familiares de Fidêncio e para livrar sua igreja das influencias malignas do demônio.

Chegando ao altar um jovem humilde aproximou-se e tomou a moça pela mão e a criança no colo e, lentamente, afastou-se do local.

O Delegado, seu Pelágio dos Santos, aproximou-se do coronel Estácio e lhe deu voz de prisão !!!


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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