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A Audiência

Erner Machado

13.07.2017

A Audiência

Michele, jovem e bonita advogada, aguardava na ante sala de uma das Varas Cíveis do Fórum de Rosário do Sul, que sua cliente chegasse para a audiência que aconteceria às quinze horas.

Vestida elegante, mas discretamente, fixava sua atenção na última leitura das anotações que tinha feito para defender suas posições em uma ação de Danos Morais contra uma administradora de Cartão de Crédito.

Chegara, como sempre, com bastante antecedência para evitar qualquer contratempo e para solucionar qualquer problema que pudesse ocorrer prestando, assim, um excelente serviço a quem a contratara.

Encontrava-se absorta no estudo da fundamentação de suas razões quando, levantando os olhos, deparou-se com sua cliente. Uma mulher extremamente clara, com os cabelos pretos minuciosamente penteados, com o rosto muito bem maquiado.

Vestia-se com uma saia que se harmonizava com um casaco de fino corte e os sapatos, de salto alto, lhe davam um ar aristocrático.

Incrustado no lindo rosto, um par de finíssimos óculos emolduravam olhos extremamente azuis.

A cliente, atendendo solicitação de Michele também, chegara mais cedo para que pudesse receber as últimas instruções de como se portar e de como conduzir-se  nas respostas às perguntas que o Juiz, com certeza, lhe faria.

Na ante sala, somente ela e sua cliente aguardavam, com certa ansiedade o momento de serem chamadas ,pelo serventuário da justiça, para darem início a audiência.

Uma porta se abre...

Dela emergem dois homens. Um jovem e alto e o outro de meia idade, cabelos brancos, estatura média, portando uma pasta preta que segurava ,sobre o peito, com a mão direita.

O homem mais velho, olhou para o relógio e dirigindo-se ao jovem disse que faltavam quinze minutos para a audiência e levantando o tom voz informou, ouvido por todos, que ia falar com patrocinadora da parte contraria.

O silencio, por segundos, se tornou mais pesado e tomou conta da sala.

O homem da pasta preta dirigiu-se a cliente de Michele e disse:

- Boa tarde, doutora, sou o advogado da Administradora e o moço que me acompanha é o preposto da mesma e para nos é interessante conversar com a nobre colega para estudarmos a possibilidade de um acordo nos autos como forma de, rapidamente, solucionarmos a pretensão exorbitante de sua cliente que quer, certamente, levar um bom dinheiro.

A elegante senhora, ao levantar-se, com num fio de voz, informou que a Doutora  a quem ele tinha que se dirigir era Michelle.

O silencio ficou mais pesado e só foi quebrado quando o homem da pasta, ignorando Michele, falou:

Me desculpe eu não poderia imaginar que a advogada não fosse a senhora...

Michele, não estava preta como é cor sua original. Estava rocha tal era seu estado de perplexidade ante o ocorrido.

Levantou-se e dirigindo-se ao homem da pasta, disse com voz forte e clara, embora estivesse com o rosto lavado em lágrimas:

- Sim a Doutora sou eu, embora seja difícil para um advogado como o senhor acreditar!

 E a minha condição de jovem e negra em nada me torna diferente do senhor, pelo contrário me orgulha e me dignifica.

Cursei a faculdade de Direito com extrema dificuldade de tempo, de locomoção e de recursos financeiros.

Me graduei com distinção de honra perante meus colegas e passei no exame de Ordem ao qual, o senhor por ser formado em data anterior a exigência, com certeza, não foi submetido.

Meu povo foi escravo, no brasil, até 1988. De lá para cá, embora tenha sido jogado na miséria, foi oficialmente declarado liberto.

E, daquele tempo, até agora, tem lutado pela sua independência econômica, financeira, cultural e social.

E assim é possível, hoje, encontrar homens e mulheres negros com capacitação superior, para exercer as mais diversas profissões que, antes, eram prerrogativas de outros povos, de outras cores...

Lhe advirto, finalmente, que vá se acostumando a nos ver em todos os lugares. A nos ver principalmente, nas ante salas dos suntuosos ou dos modestos templos da Justiça por que nós ,os negros, ocuparemos, por direito, os mesmos lugares que os senhores ocupam e estaremos envolvidos, como lidadores do direito,  na produção da Justiça de nosso pais e do mundo.

-Agora quanto a sua proposta lhe informo, em nome de minha cliente, que não há possibilidade de acordo!!!

A porta da Sala de Audiências abriu-se e todos entram e o Juiz declarou iniciados os trabalhos.

O homem da pasta levantou-se e dirigindo-se ao Juiz, disse;

- Meritíssimo solicito-vos que esta audiência seja adiada para uma outra data, por razões de foro íntimo deste advogado.

- Requerimento aceito. Disse o juiz.

Todos saíram. A cliente de Michele, sem entender muito bem o que aconteceu.

 O preposto da Administradora com um olhar espantado, falava em tom inaudível com o homem da pasta que de cabeça baixa respondia, também, em tom muito baixo.

Michele, de cabeça erguida saiu do Fórum, como uma Deusa Negra cuja dignidade se expressava no rosto de rara beleza, no qual havia um leve sorriso que era iluminado por uma estranha luz...


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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