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A matéria prima

Erner Machado

16.11.2017

A matéria prima

Domingo dia 12 de novembro foi a noite de ficar na fila, para reservar vaga no Maternal – Turno da Tarde – para o meu Neto Davi na Escola Municipal Ensino Infantil – EMEI -  de Capão Novo.

Cheguei às 21 horas e já fui o segundo da fila. Fiquei lá até 24:30 quando fui substituído pelo meu filho Paulo, pai do Davi, que ficou no posto até 5:00 horas quando, novamente, eu assumi com muita honra a posição a ser guardada.

Todos, na fila, eram pais ou mães... ainda jovens. Somente eu era avô, condição que aliada aos meus cabelos brancos e à manta do Inter, com a qual corajosamente eu me cobria, me dava um certo ar respeitabilidade às opiniões que derivavam das conversas daquelas horas de vigia.

Foram horas especiais em que os participantes homens e mulheres fizeram uma catarse da realidade de ter-se um ou mais filhos pequenos e ter que trabalhar dois turnos enquanto ele fica na escola ou na Creche que o acolhe de manhã ou de tarde.

O cafezinho ou o chimarrão que corria de mão, impedia que o sono chegasse e as conversas sobre futebol por parte de gremistas e colorados tinham o enredo de sempre.

A noite, embora fria, se nos apresentava muito linda, com uma lua Minguante cujo singelo brilho era emoldurado por miríades de estrelas que iluminavam um céu estranhamente azul.

Eu não via um céu assim desde as noites de pescaria na Barragem da Taipa em Rosário do Sul. Faz tanto tempo!!!  Mas a imagem permanece na minha mente, na minha alma, no meu coração e na minha história.

Às oito horas começaram a chegar as crianças de 1 a 5 anos que frequentam a Escola, ainda em turno integral. Algumas desciam de um Van de transporte particular mas, a maioria, era trazida pela mão do pai ou da mãe. Sonolentos e sérios adentravam à porta principal e eram conduzidos às suas salas, de acordo com a turma a que pertenciam.

Fiquei absorto vendo-os entrar. As estrelas já tinham sumido e os raios de um sol, nascido no mar, desenhava estranhos contornos luminosos nas copas da arvores e nos telhados das casas.

Não foi difícil me entregar a uma profunda reflexão e como cenas de um filme vi, naquelas crianças a Matéria Prima do projeto futuro de nosso país. E tomado de uma euforia extrema fiquei imaginando que se naquele momento, todas a crianças de 1 a 5 anos de minha Pátria estivessem entrando para um EMEI igual ao de Capão Novo. E nas salas de recreação estivessem recebendo os cuidados necessários para que fossem adquirindo capacidades que os transformassem em bons alunos de primeiro grau. E fui mais longe imaginando que  todas as crianças de meu país tivessem acesso a escola de primeiro grau e que ai recebessem as informações suficientes para que se tornassem excelentes alunos de segundo grau .... e me encontrei pensando que, neste momento, cada aluno de segundo grau estivesse na escola, em cada canto de meu pais, por mais longínquo que fosse e que na escola estivesse recebendo subsídios intelectuais, sociais e morais que o transformassem em um excelente acadêmico que depois de formado seria um cidadão de primeira categoria, um profissional que na sua especialidade honrasse a Universidade que o formou e  inundasse de orgulho a família de onde veio.

E fiquei imaginando, neste sonho teórico, que cada uma daquelas crianças do EMEI Capão Novo e dos milhares de EMEIs que existiriam no País, seriam cidadãos capazes de construírem uma nova historia para nossa Pátria e para nosso Povo.

Ficou-me uma certeza a Matéria para este Projeto de País estava ali! Não existiam dúvidas disto. E essa Matéria Prima se multiplicava por cada canto do Pais. Bruta, ainda, mas pedindo para ser trabalhada e transformada em Pedra Polida da Construção de nosso Futuro.

Paralela a minha certeza de saber que temos a Matéria Prima, assaltou-me uma verdade que me atormenta e atormenta aos que, de alguma forma, pensam a nossa realidade: A educação não é  prioridade do Estado Brasileiro e por não ser estamos desperdiçando a possibilidade de mudarmos a história.

E não sendo prioridade não resulta em um Projeto de Estado e a Matéria Prima disponível continuará sendo perdida para a Corrupção, para imoralidade, para o Crime, para os desvios de conduta, para uma cidadania subalterna sem condições de escrever a História que desejamos.

Ficou-me, como derradeira herança de minha reflexão, a certeza de no EMEI de Capão Novo, temos parte do Sonho de uma Nação culta, livre, democrática e honrada.

A Outra e a maior parte da Matéria Prima de minha reflexão está, agora, nas vilas periféricas, de meu pais, morando em barracos de madeiras, construído em área invadidas, cujos país não tem como dar-lhes uma vida digna de seres humanos e que não terão acesso a escola, a saúde, a alimentação adequada e que quando menos esperarem serão abatidos por alguma bala perdida disparada por uma mão armada do crime organizado que o estado Brasileiro não tem condições de combater.


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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