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As vilas do Riacho Ipiranga

Erner Machado

05.12.2017

As vilas do Riacho Ipiranga

Eu fiz, e está publicado no meu velho blog, um ensaio no qual eu levava o leitor a imaginar que a “lua, no céu tão, bela, parecia uma sentinela, nos olhando aqui em baixo, mas tem uma magoa secreta, a de não poder descer do céu, bem quieta, e se banhar o riacho.”

Estes versos foram feitos em uma noite em que sai da faculdade de Direito da Puc e vi, no céu, uma imensa lua refletindo sua imagem no espelho noturno do riacho.

Que imagem, que momento. Merecia um verso.

Eu não sei, agora, se a minha metáfora serviria para o momento em que o riacho vive. Passei pelo Riacho, no domingo, e vi em quase todas as pontes transversais ao riacho, uma vila com mais de 10 pessoas instaladas.

Cada uma das unidades habitacionais, tem sofás, colchões estendidos no chão, cozinha, com panelas, louças e um fogo de chão, de onde sai uma fumaça escura e triste produzida, no dizer de Firmino P. De Carvalho, por algum pau verde queimando...

Ali, eles se alimentam, dormem, fazem sexo, se drogam e se encharcam de cachaça para assim, adormecidos pelas drogas e pelo álcool, esquecerem das suas misérias e das suas dores.

Ali eles se amam fugazmente e se matam, em disputa por algumas moedas, por um trago de canha ou por uma coxinha de galinha deixada no lixo, por algum morador dos edifícios dos arredores.

Em uma desta unidades eu vi um cão Dálmata, portentoso Dálmata, deitado no chão, em postura de guarda ao lado de seus donos.

Em uma das unidades habitacionais, eu vi, um jovem sair do lugar onde estava sentado, na cozinha e com uma garrafa de plástico cortada ao meio, se dirigir para a encosta do riacho, ao lado da vila, e encher a garrafa com a água de uma “vertente“ que saia por entre as pedras.

E o vi tomar a água. E o vi dar para os outros a garrafa e vi todos tomarem a água.

Em um das Pontes mais próxima da borges eu vi um pescador, com uma tarrafa retirar quase uma dezena de peixes de médio tamanho que nadavam nas águas poluídas do riacho...

Meu Deus, como diria Castro Alves: “Em que mundo, em que estrela tu escondes......”, sim porque só Deus, se não estivesse escondido, poderia salvar estas pessoas do crime que estão cometendo consigo mesmo. Até porque os políticos não se preocupam em salvá-los, dando-lhes condições de terem uma vida e um trabalho dignos que os mantenha na condição de seres humanos, tendo um teto, comida e condições mínimas que, pelo menos, não lhes levasse a beber a água contaminadas das pedras do riacho Ipiranga.

Parece até que, para os políticos, é interessante que existam miseráveis. Se não existissem os miseráveis, para onde iriam os seus discursos mentirosos que se repetem, no nosso pais, a cada eleição?

Acho que diante do que vi, posso considerar a minha figura poética sobre a lua e o riacho, ultrapassada, fora de tempo.

A lua jamais iria querer se banhar neste riacho que um dia foi belo e hoje é uma exposição surrealista de miséria, sofrimento e dor.

Senão ultrapassada e fora do tempo, pelo menos imprópria como definição do romantismo que o riacho Ipiranga foi capaz de, um dia, inspirar um estudante de direito cujo curso ficou, pelos caminhos, perdido nas desilusões da vida.......!


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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