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Renato e Maria Clara (um velho texto)

Erner Machado

10.07.2018

Renato e Maria Clara (um velho texto)

O Jornal do Almoço do dia 10 de março, mostrou os dois. Maria Clara e Renato ou Renato e Maria Clara. Por mim, a história dos dois foi ouvida e assistida com uma profusão de lágrimas...

A Maria Clara, ao nascer teve paralisia cerebral, que lhe tolhe, parcialmente, a mão direita e não lhe proporciona movimentos labiais regulares impedindo, com isto, que se expresse com normalidade. Independente deste problema é uma mulher bonita, com um grande sorriso que se manifesta, em seu rosto, nos dando e transmitindo uma sensação de alegria e de felicidade.

A Maria Clara, como toda a jovem frequentou festas, reuniões dançantes e bailes. Relatou que, nesta fase de sua vida, nunca teve um namorado. Sentava-se nas mesas com as suas amigas e quando estas iam dançar, algum rapaz se aproximava iniciava a apresentar-se mas, logo se retirava, com um sorriso ou sem ele, quando Maria Clara falava ou movimentava as mãos.

E, suas festas, Seus bailes e ou suas reuniões dançantes eram embaladas por solidão, por desenganos e por tristezas. Por muito tempo, foi assim... Até que um dia apareceu um sujeito alto, bom cabelo, elegante que  chegou na mesa onde ela, sentada, enquanto a outras dançavam,  ouvia Renato e seus Blue Caps, cantando Menina Linda...! O sujeito sentou-se e, estendo, a mão se apresentou: Olá, eu sou o Renato. Quer dançar comigo. Era um convite incondicional que não admitia recusa. Maria Clara ao  apresentar-se,  misturando voz com gestos, levantou-se e com dificuldade disse seu nome e com mais dificuldade esforço, colocou a mão direita no ombro esquerdo do Renato e saíram pela sala dançando sob o som dos Blue Caps, que agora tocava “Nos braços, nos olhos e no coração” , cuja letra poderia ter sido feita por ela, nas horas infindas e solitárias em que ficava sentada nas mesas dos salões.

Me leva nos braços, nos olhos e no coração
E deixa que eu seja o sentido da sua canção

Quero fazer de você uma pessoa feliz
E dedicar pra você todos os versos que fiz
Quero curtir com você o céu, as estrelas e a lua
Quero ouvir de você: "Vem que eu sou sua!"

 

Me leva nos braços, nos olhos e no coração
E deixa que eu seja o sentido da sua canção...

Foi o encontro de suas vidas. No mesmo dia Maria Clara e Renato começaram a namorar. Ela nem acreditava. A família dele foi contra, mas nada que possa impedir a força de um grande amor que se expressa nos olhares de duas almas quando se encontram. Casaram-se! A foto do casamento, mostra uma Maria Clara e um Renato Felizes. Sorridentes. Alegres. De bem com a vida.

De repente, não mais que de repente, o Renato descobre que, incurável e progressivamente, uma doença está liquidando com o seu sistema muscular. Suas pernas, seus braços e suas mãos foram sendo afetadas lhe impedindo os movimentos. E está, cada dia, pior. A Maria Clara, esqueceu-se de si, curada que foi de sua alma, pelo amor do Renato e dedica-se diariamente a ser o amparo, o guia, para o seu amado. Maria Clara, fisicamente frágil, já não consegue mais levantar o corpo do Renato, para movimentá-lo da cadeira para outros locais. Por esta razão a Jornal do Almoço chamou a atenção de que eles precisam de um equipamento tipo guindaste, usado para estes tipos de patologia. Vão conseguir.

Mas se  não conseguirem tenho certeza que irão tocando a  vida,com os seus  corpos se arrastando pelo espaço humilde em que moram, vivendo o seu dia a dia, amparados pelo companheirismo, pela fidelidade, pela amizade mas, acima de tudo pelo amor, pelo enorme amor que nasceu durante uma reunião dançante  na qual o Renato teve a coragem e a gentileza de tirá-la para dançar  e que dançaram a música cujas letra e  melodia serão eternas...

Com grande dificuldade o Renato expressou-se dizendo que eles são o Renato e a Maria Clara ou a Maria Clara e o Renato. São, portanto, um só corpo e uma só alma. Completam-se. Somam-se. Fundem-se. Tudo em nome do amor que os une e que nunca os haverá de separar.

Fiz este texto por que ainda continuarei ouvindo, por muito  tempo talvez, para sempre: Maria Clara e Renato, Renato e Maria Clara...! Seus nome soam para mim como uma canção de amor, como um poema que retrata a história daqueles que, embora, massacrados pela fatalidade, pela dor, pelas limitações de todas ordens, sempre sonham com um novo dia e, em nome do AMOR, NUNCA DESISTEM!!!


Tags: Erner Machado, coluna, colunista, artigo


Erner Antonio Freitas Machado, é natural de Rosário do Sul, trabalhou no Banco da Província, no Banco da Amazônia e na CRT (Telefonica-BRT).

Escreveu O AZUL PROFUNDO, livro de poesias. Colabora com a FOLHA DO LITORAL, de Capão da Canoa e com diversas mídias eletrônicas, destacando LITORAL MANIA, de Xangri-lá e BLOG DO PAULO NUNES de Vitoria da Conquista -BA.

Está trabalhando na coletânea de Prosa e Poesias de sua autoria que vai publicar, com o nome de NOVOS TEXTOS.

e-mail: ernermachado@gmail.com




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