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O Clubinho em Noite de Gala

Mafalda Orlandini

22.04.2013

O Clubinho em Noite de Gala

Quando nos mudamos para a casa da Visconde (do Rio Branco), o Lourenço ainda não havia nascido. Veio ao mundo em 1939. Quando perguntavam onde ele havia nascido, durante muitos anos, costumava dizer: Lá em cima, no quarto de minha mãe. Era costume e, no quarto filho, meu pai nem cogitou de hospital. Mamãe teve um parto muito difícil, meu pai levou um puxão de orelhas do médico e nós, um susto.

Fomos crescendo normalmente como toda criança sadia em um lar em que a Segunda Grande Guerra não chegou. Ninguém nos falava das atrocidades que eram praticadas naquele período. Sabíamos que estávamos em guerra com a Alemanha e a Itália e que não podíamos falar alemão ou italiano, que, em Roca Sales, tiraram até o rádio dos colonos para não torcerem para o “eixo”. Ouvimos que afundaram uns submarinos brasileiros. Mas nunca nos assustaram ou sofremos privações. Tenho certeza de que nos pouparam de muitas coisas tristes. Eu me lembro de um único problema: tivemos que colocar gasogênio em nosso carro porque não havia gasolina à vontade. Mas sem estresse, porque meu pai contratou um motorista para não sujar seus ternos brancos.

Ele era um homem sério, exigia disciplina, mas nunca deu uma palmada em um filho. Fiquei, uma vez, sem café da manhã por não querer pedir por favor para alcançar o açucareiro. A Leda era a mais graciosa e irrequieta. Ficou de pé um dia, na hora do almoço, por não se comportar durante a refeição. Outra vez, não quis comer cenoura e teve que comer duas porções, porque fazia bem para a saúde. Ele mandou chamar o Lourenço duas vezes. Não veio, pois estava brincando. Foi buscá-lo pelas orelhas na casa dos Rossi. Não me lembro de o Benito levar castigo. Era muito comportado. Bastava meu pai dar a ordem e fixar em nós aqueles irresistíveis olhos azuis e obedecíamos.

No final de 1946, terminei o antigo ginásio. Como era um fato inusitado e eu estava fazendo 17 anos, pedi e ganhei uma festa de gala em casa. Que luxo! Foram feitas guloseimas, um bolo de aniversário, comprados dois barris de chope e muitas, muitas garrafas de guaraná. Foi contratado até o conjunto do Sebastião Fortes, irmão da colega Melisande. Era mais que suficiente para a tão sonhada festa. Minhas amigas vestiram os flamantes longos do baile de formatura, os jovens vieram de blaser e gravatinha, Todos muito chiques para dançar a noite inteira e tirar as tradicionais fotos. Foi uma noite de gala “para ninguém botar defeito”. Naquele tempo, nós nos divertíamos assim. Tudo bem comportado, fiscalizado pela família, sem excessos. Para os jovens de hoje, talvez, fosse muito sem graça, uma festa cafona.

É claro que estou falando de lembranças do século passado, da década de quarenta, há setenta anos. Hoje não seria certo manter os filhos alheios à realidade violenta do mundo moderno. É necessário e urgente prepará-los para a vida, informá-los sobre a situação mundial, o que ocorre no nosso planeta e até no próprio lar, que, não raras vezes, é invadido pela violência. Voltemos ao sonho. Foi uma comemoração de aniversário que valeu por todos os anos de minha vida. Enquanto viver, sempre sentirei saudades daquela noite de contos de fadas.

Mesa com guloseimas. À direita Mafalda e seu futuro esposo Ney.


Conjunto do Sebastião Fortes.

 
Os casais “bem comportados” da festa.


Os casais se divertindo no Clubinho.


José Guido (pai) servindo um chopinho para os amigos.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

  • Susana Maria Rossi de Carvalho e Silva (22.04.2013 | 23.57)
    Estou adorando a coluna da tia Mafalda. Muitas lembranças me vem a mente, pois participei ativamente desta família. Ir até a Fazenda do vô Guido era o máximo. Acho que a minha paixão pelo campo vem desta época maravilhosa que compartilhei com toda a família. Sempre tinha um lugar no carro do tio Benito para eu ir junto. Não vou deixar de ler as colunas da tia Mafalda, sou sua fã número 1!!!
  • Resposta do Colunista:

    E eu te acompanho no face. Tenho muitas lembranças para contar. Só as boas. Vou reviver muitas  que vivemos naquele local. Os meus leitores são como tu , os parentes e os aparentados. O Luiz Alberto Rossi é um leitor que lembra muitas coisas daquele tempo. Fala para a Susete tb ler . Continua me dando notícia. Bj

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