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Tia Stella, a Quituteira da Família

Mafalda Orlandini

06.05.2013

Tia Stella, a Quituteira da Família

Quando os filhos homens chegaram à idade de trabalhar e de casar, o vovô Lourenço deu para cada um vinte contos de reis para começarem uma empresa. Foi, então, iniciada uma sociedade que, mais tarde, se tornou as Indústrias Orlandini S/A. Prosperou rapidamente e os irmãos foram fazendo outros empreendimentos. A filha mulher, a tia Stella, não recebeu os vinte contos e não pode participar do empreendimento.

Quando veio morar em Porto Alegre, o marido dela, um descendente de imigrantes alemães, o dentista Carlos Saatkamp, comprou uma bela casa de esquina na Bela Vista. Ela organizou um belo jardim ao redor e cultivava, no quintal, uma pequena horta da qual colhia saladas fresquinhas. Quando a visitávamos, fazia questão de mostrar tudo com orgulho de quem ama ver as plantas brotarem viçosas, saudáveis.

Nós adorávamos a tia Stella. Tínhamos um convite permanente para degustarmos as delícias que ela fazia. Íamos de carro com papai que nos recolhia ao anoitecer. Era combinado que, nos dias frios do outono ou do inverno, íamos passar a tarde com ela. Enquanto tomávamos mate doce ela preparava delícias que só ela sabia fazer: umas rosquinhas de polvilho fritas que nunca vi alguém fazer igual, as calças-viradas e os bolinhos-de-chuva eram especiais, e a pipoca com melado era maravilhosa. A conversa corria solta a tarde inteira. Meu primeiro filho já havia nascido e mantínhamos aquele hábito tão gostoso. Além disso, era excelente dona de casa, e educava seus dois filhos com dedicação.

Só havia um senão que, às vezes, tirava o brilho do encontro. O tio Carlos, quando chegava de mau humor, vinha, invariavelmente, reclamar dos vinte contos que os irmãos haviam recebido e a esposa não. Ficávamos constrangidos e não entendíamos a reclamação. Não sabíamos explicar ou justificar o critério adotado por meu avô. Quando o tio ia direto para o seu escritório no segundo andar, ficávamos aliviados. O interessante é que ele só reclamava para nós e não para o sogro e os cunhados com os quais se dava bem.

A vida andou. Nunca mais pensei no assunto até que, há uns dois anos, um senhor de Roca Sales, de oitenta e quatro anos, me perguntou por que meu avô brigara com a tia e a deserdara. Nunca houve briga. Sempre houve carinho e respeito entre eles. E, só agora, no século XXI, eu, sua neta, pude entender e defender para terceiros o contravertido caso. O mais velho italiano, nascido na segunda metade do século XIX, e o outro alemão, mais moço, nascido na primeira metade do século XX, eram de culturas diferentes. O genro não se atrevia a discutir com o sogro o que pensava, mas ficava reclamando para a esposa e os parentes o que pensava ser injustiça.

Hoje sabemos que o vovô agiu conforme os seus antepassados. A mulher não deveria se meter em negócios de homens. O lugar dela era no lar, cozinhando, lavando, criando os filhos. A querida tia Stella foi uma mulher perfeita. segundo as ideias machistas de então.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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