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Dia dos Namorados sem Namorado

Mafalda Orlandini

10.06.2013

Dia dos Namorados sem Namorado

Nestes últimos seis anos é a primeira vez que não vou ganhar meu buquê de rosas vermelhas com um cartão dizendo “Ich liebe dich”. Nem por isso, vou deixar de contar uma linda história de amor. Mesmo porque não há nenhum trauma nisso. Estou sozinha por opção.

Em agosto de 2007, oito horas da noite, tocou o telefone. Era uma pessoa que eu conhecia há mais de sessenta anos. Queria contar que estivera visitando a nossa terra natal, Roca Sales. E queria também comunicar que ficara viúvo. Falava, falava e eu, que queria continuar meu jogo no computador, sugeri que nos encontrássemos no supermercado para almoçar. Seguidamente, eu o encontrava lá fazendo compras ou almoçando com a esposa. Depois do almoço, quis levar-me para casa, agradeci, pois ainda dirigia o meu carro.

Passou dez dias telefonando, convidando. Eu sempre dizendo não, porque, com 77 anos, achava ridículo sair por aí, namorando. Estou viúva desde 1968. Até que ele teve a brilhante ideia de me convidar para ir à Expointer. Lá almoçamos e passamos a tarde conversando. Ele conhece todos os meus parentes, é amigo de muitos, foi funcionário da empresa de minha família durante anos. Pensei, valeu a pena, foi uma tarde muito agradável.

Esperou uns dias e voltou à carga. Aceitei o jantar. Veio então a história de que se apaixonara desde a primeira vez que dançara comigo. Eu tinha dezessete anos e ele dezenove. Quando voltou do Rio de Janeiro, depois de fazer o Serviço Militar na Aeronáutica e ele tinha coragem de pedir a filha do patrão em namoro, não falou porque ela já estava noiva.

Quando disse esta frase, capitulei. “Um Ser superior nos fez nascer na mesma cidade e agora nos uniu para passarmos o resto da vida juntos”. Durante cinco anos, vivemos como se jovens fôssemos. Intensamente. Íamos a jantares dançantes e almoços no Grêmio Náutico União. Numa feijoada na Ilha do Pavão, fomos até aplaudidos depois de dançar New York New York. Uma vez, a diretora de um jornal de Tramandaí pediu para tirar uma foto do casal tão simpático e colocar no jornal. Publicou mesmo e me mandou um exemplar. Sempre íamos ao Jantar dos Cozinheiros na SAT e à Feira do Peixe. Em Porto Alegre, saíamos em dias alternados, frequentávamos todos os restaurantes da Zona Sul e fizemos amizade com os gerentes e funcionários. Ele telefonava nas outras noites para dar boa noite e dizer eu te amo, “guria”.

Faz um ano, comecei a cair. Tive uma pneumonia e fui hospitalizada. Saí do hospital com vinte quilos a menos, com disfagia, uma sonda gástrica e em cadeira de rodas. Ele continuou me visitando, telefonando todos os dias para perguntar quando iríamos para Tramandaí. Em janeiro deste ano, quando perguntou pela milionésima vez, quando iríamos ficar juntos novamente, decidi que devia fazê-lo cair na realidade. Já tirara a sonda e convidei-o para vir jantar comigo.

Quando chegou à noite, sorridente, com flores e uma garrafa de vinho cabernet que ele adora, tomei coragem e fui logo dizendo que ele devia cair na realidade. Que não era justo mantê-lo na ilusão de que eu poderia voltar a ser o que tinha sido naqueles anos. Que jamais voltaria à praia. Que embora já andando de bengala, não pretendia sair mais à noite. Que ele viesse aqui sempre e quando quisesse, mas se considerasse livre para optar por outro caminho. Ele não contestou, jantou como se não tivesse entendido, despediu-se, dizendo amanhã eu telefono.

O Ary sempre foi um homem fino, educado, gentil, daqueles que abre a porta do carro e puxa a cadeira para a dama. Foram cinco anos maravilhosos com flores, bombons e champanhe em que descontei meus quarenta anos de viuvez. Ele jamais teria argumentos para não aceitar minha decisão. Vivi uma linda e gratificante estação de amor com minha paixãozinha outonal.

Desde então nunca mais apareceu, nem telefonou às vinte horas para dizer boa noite e “Ich liebe dich”. Às vezes sinto saudades, quando me lembro daquele homem de 85 anos naquela casa enorme e vazia. Mas penso que todo passarinho, mesmo em gaiola de ouro, sente-se preso, não está plenamente feliz e é preciso abrir a portinha para ele poder voar se quiser...


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

  • Marinez (04.07.2013 | 21.34)
    Mafalda! É uma linda - uma lindíssima - história de amor. Certamente foi vivida, sentida, curtida em cada momento. Tudo foi regado e recheado com toda a intensidade que vocês precisavam, mereciam. As saudades "daquele homem de 85 anos naquela casa enorme e vazia" sempre vai existir, com ou sem rosas vermelhas, vinhos, chocolates. E que bom que isto existiu. E que bom que tudo aquilo deixou saudades. Tu és linda e verdadeira!
  • kathia sussella (10.06.2013 | 20.24)
    Querida Mafaldinha,qdo sugeria que contasses tua história de amor.....isso pq sou uma eterna enamorada....jamais pensei que iria ler e me emocionar tanto.Parabéns!!!Ter histórias para contar é ainda nosso maior tesouro.bjs
  • Resposta do Colunista:

    Fico feliz em saber que consigo expressar o que sou e o que sinto para as pessoas que já conviveram comigo.

    Brigada pelo carinho de sempre. Beijo.

  • Resposta do Colunista:

    Obrigada.Espero que sempre sejam boas histórias e que despertem doces emoções.

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