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O Funeral da Paineira

Mafalda Orlandini

24.06.2013

O Funeral da Paineira

Demorou, mas saiu o atestado de óbito (laudo de um biólogo) da paineira. No sábado de Aleluia, chegou um caminhão da Prefeitura com três homens, serra elétrica, máquinas e toda uma parafernália de instrumentos para efetuar o complicado trabalho. Fiquei a postos, e fotografei, e acompanhei todo o procedimento. Não sou fanática para acompanhar funerais, mas por aquele eu estava aflita: queria ver terminar aquela agonia e o perigo que seus três troncos, morrendo, representavam. Não foi fácil. Além de toda a técnica que o corte exigia, os homens tiveram que lutar contra os últimos moradores da paineira, as mamangavas que se refugiavam nas parasitas que a sugavam. A síndica me falou depois que ficou muito assustada com tantas abelhas grandes e peludas que invadiram sua cobertura.

Eu sabia que dona Marli Zancan tivera muitas dificuldades para conseguir o tão esperado corte. Pedi então que me contasse todos os passos que dera. O envenenamento começou há quatro anos. O Condomínio fez uma denúncia na SMAM. Ficou só no protocolo, porque a paineira estava em uma propriedade particular. Ela foi com a subsíndica aos Bombeiros e à Brigada Militar. Também não é competência deles nesses casos. Demorou até conseguir o nome do proprietário do terreno. Os vizinhos alegavam não saber a quem ele pertencia. Enfim, o tal cavalheiro foi identificado, intimado, solicitou o laudo de um biólogo e deu a tão esperada ordem para terminar a novela.

Foi triste ver tombar a paineira mesmo porque a parte mais grossa do tronco ainda estava verde. É que o veneno comeu a base, secou os galhos, mas tinha os troncos (eram três) ainda resistindo. Ela iria sofrer mais algum tempo antes de ser derrubada por algum temporal, fazendo os temidos estragos.

A natureza é sabia e prevê, às vezes, o que vai acontecer. Há dez ou onze anos, o marido da minha neta, naquele tempo seu noivo, ia saindo daqui. Ventava muito e a paineira espalhava flocos de algodão e sementes até o jardim do prédio. Uma semente caiu na mão dele. Filho e neto de fazendeiros, ele a levou e a plantou em um vaso no seu apartamento. Várias vezes, já foi transplantada para vasos maiores porque ela cresceu e já tem mais de um metro. Só o destino dela ainda é incerto porque o pequeno jardim da casa onde mora, agora, já com netos meus, não comporta uma árvore tão grande. A ideia é transformá-la em um bonsai gigante ou transplantá-la para as terras dos pais dele em General Câmara. O certo é que vai continuar vivinha da silva.

Vale dizer que ainda há esperança. Enquanto uns seres humanos destroem, outros preservam a natureza, valorizando uma simples sementinha pedindo socorro. Também é possível, e não impossível, que o próprio meio ambiente consiga se defender da maldade de muitos homens que nunca ouviram falar de desenvolvimento sustentável.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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