RicardoOrlandini.net - Informa e faz pensar - Colunista - A Mudança para o Casarão

Últimas notícias

Colunistas

RSS
A Mudança para o Casarão

Mafalda Orlandini

15.07.2013

A Mudança para o Casarão

Estávamos no final da década de cinquenta, quando minha mãe começou a reclamar que a casa estava pequena. Hoje vejo que não era não. Na minha lembrança, era maravilhosa. No andar térreo havia copa e sala de jantar, gabinete, hall de entrada, cozinha ampla com uma despensa, dependência de empregada e um jardim de inverno todo envidraçado com um banheiro auxiliar. No andar de cima, havia quatro dormitórios. Uma sacada na frente e um terraço nos fundos. Nunca me esqueci do banheiro: amplo, com uma banheira tamanho família, coberta por uma concha azul perolada. Todos ficavam impressionados e comentavam sua raridade e beleza.

O pátio era coberto por um parreiral que nos premiava anualmente com uvas saborosas. Eram uvas brancas suculentas, mas as pretas eram as mais doces. E ainda havia outra qualidade, a moscatel, uns cachos maiores e com uvas mais miúdas. Todos os anos, ele era caprichosamente podado pelo mesmo jardineiro. No verão, sempre sentíamos o cheirinho gostoso das uvas, e tínhamos que nos defendermos das abelhas operárias.

    
Mafalda sob o parreiral.

No final do terreno havia outra construção; eram três peças e uma garagem. Era ali nosso local de estudos e jogos. Tudo era coberto por um enorme terraço de tijolos à vista ao qual se subia por uma escada também de tijolos. Ah! ia me esquecendo que também havia um galinheiro ao lado da garagem. Sempre tínhamos frangos para abater na hora das macarronadas ou polenta com molho.


Mafalda e sua cachorrinha Duquesa.

Quando relembro como era essa casa, vejo que não era pequena. Era, na realidade, ampla e muito bem feita por um construtor para ele mesmo. Lembro até o nome dele, pois estava registrado numa coluna na entrada: Construída por Arthur Sfoggia. Hoje, setenta anos depois, passo lá e a vejo bem conservada, parece que o tempo não passou para ela. É que minha mãe, em certo ponto, tinha razão. Nós sempre recebíamos hóspedes: eram os parentes de nossos pais e amigos do Rio de Janeiro. Nós, as crianças, havíamos crescido e ela precisava desacomodar os filhos para atender bem os visitantes.


Mafalda ao lado da coluna que leva o nome do construtor Arthur Sfoggia na casa da Visconde do Rio Branco, 734.

Começamos então a procurar uma casa que fosse maior. Lembro que visitamos três. Um casarão numa esquina da Coronel Bordini que era grande demais. Uma casa térrea na Quintino Bocaiuva e que era pequena. Quando passo por elas, me lembro que quase morei ali. E uma terceira na esquina . da Vinte e Quatro de Outubro com a Hilário Ribeiro. Na realidade, nós não gostamos de nenhuma, mas o papai nos surpreendeu fechando negócio com o advogado Arnaldo Ferreira. Disse que fizera um ótimo negócio porque dera a nossa casa como parte do pagamento, pagara a diferença e resolveram trocar as casas parcialmente-mobiliadas.


Casa de número 434 na esquina da Vinte e Quatro de Outubro com Hilário Ribeiro. Hoje existe um edifício no local.

A confusão já começou quando solicitaram para, na construção dos fundos, prepararem a biblioteca para trazer o enorme acervo de livros raros que possuíam. Quiseram também desmanchar uma lareira lidíssima de mármore italiano na sala de jantar. Enfrentamos, então, o vai e vem diário de pedreiros dentro de casa. O sofrimento durou um mês. Marcamos o dia para trocarmos de casa. Foi a mudança mais confusa de que tenho notícia. Não aconselho ninguém a fazer isso. Era um vai-e-vem de caixas e pacotes que eram confundidos e levados de volta. Os carregadores não se entendiam. Nós também não pensamos em marcar os volumes. Hoje a gente seria mais esperta, contrataríamos um técnico para organizar. Enfim terminou a mudança para o casarão da Vinte e Quatro sem mortos ou feridos e abandonamos a amada  casa da adolescência.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

Deixe sua opinião

Comemoramos hoje - 18.08

  • Dia de Santa Helena
  • Dia do Anjo Lelahel
  • Dia do Estagiário