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Família Voges, o meu lado alemão

Mafalda Orlandini

22.07.2013

Família Voges, o meu lado alemão

Está na internet a árvore genealógica de Carl Leopold, nascido em 1801, em Flieberg, Hildeheim, Hannover. Chegou em São Leopoldo em 1825 como imigrante. Casou-se, teve cinco filhos e, anos depois, estabeleceu-se em Três Forquilhas. Entre eles, consta Carl Friedrich, pelo que sei, meu bisavô. Ao morrer, deixou bens porque seus descentes tiveram que fazer um inventário no ano de 1900, em que são nomeados imóveis, móveis, semoventes e até escravos. Teve muitos filhos e um deles é meu avô Otto Robert Voges.

Encontrei, no álbum de minha mãe, uma foto da família Voges. Acho que é de 1927, mais ou menos. É na frente da casa de madeira estilo colonial, onde eles viveram em Roca Sales. Está o casal com seus dez filhos, com suas roupas domingueiras, preparados para o fotógrafo tirar uma foto bem caprichada.


Em pé, da esquerda para a direita, Alzira, Carlos, Arnaldo, Arremor, Oswaldo, Almiro, Celina.
Sentados: Docelina, Edgar, Carolina Berwig, Araci, Otto Voges.
Roca Sales - 1927

Tenho uma lembrança alegre e uma triste de ter ido, muitas vezes, àquela casa bem no início da minha infância. Eu me lembro de brincar com meus primos e comer bananas-nanicas, muito gostosas de uma bananeira no amplo terreno aos fundos. Havia também uma pequena plantação de milho e uma de cana de açúcar. Meus tios cortavam pequenos pedaços de cana e descascavam para nós chuparmos. Era gostoso e divertido. A comida alemã da vovó Carolina era diferente da que minha mãe fazia. Porque ela aprendeu com a sogra, a cozinhar à moda italiana para agradar meu pai. A vovó fazia uma salada de pepino diferente, chucrute, batatas a vapor e massas sem molho ao sugo. Também havia cucas muito especiais. A lembrança triste é do vovô Otto. Não podíamos chegar perto dele porque estava tísico, como diziam naquele tempo. Deixara seu açougue para Carlos, o filho mais velho cuidar, pois era proibido pela doença. Seus pertences pessoais, inclusive as louças e os talheres, eram, separados. Era o modo de prevenção e segregação que usavam então. E eu nunca pude ter o colo ou um abraço do vovô.

Mas o que eu também quero contar é uma linda história de amor que quase virou uma tragédia de Romeu e Julieta e por que eu nunca tive o nome Voges. Minha mãe tinha 16 anos e meu pai 19, quando se apaixonaram. Os irmãos dela viraram feras quando aquele italiano riquinho, metido a besta, se atreveu a tocar na irmãzinha deles. Muito choro, ameaças de morte, de surras, brigas, recados para lá e para cá. Eram os irmãos Orlandini contra os Irmãos Voges. A briga corria solta entre os irmãos alemães e os italianos. E a intriga chegava ao auge, porque o fato era um prato cheio para fofocas.

Quando enfim acertaram o casamento, o vigário católico se meteu. Disse que não iria casá-los porque minha mãe era evangélica, Luterana. Só depois de minha mãe se converter ao catolicismo e prometer que seus filhos seriam católicos saiu o enlace. Afinal, não houve mortos nem feridos como no caso de Romeu e Julieta. O casório saiu no dia nove de julho de 1929, quando meu pai fazia vinte anos. Mesmo com o final feliz, ainda ofendido, exigiu que minha mãe não assinasse mais o nome de solteira. Meus pais vieram passar a Lua de Mel em Porto Alegre e levaram de lembrança uma foto do lambe-lambe da Praça XV. Seis meses, depois eu nascia em Roca Sales sem o sobrenome Voges.


Alzira e José Guido Orlandini
Lua de Mel em Porto Alegre - julho de 1929


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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