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Quase Incendiários

Mafalda Orlandini

11.11.2013

Quase Incendiários

Os meios de comunicação já começaram a anunciar o Natal deste ano. É o famoso Natal Luz do Gramado, Shoppings mostrando ricas decorações, lojas anunciando tentadoras ofertas, pedidos para o Natal dos carentes. Eu me lembro de um Natal bem diferente. Era tudo muito mais simples, menos comercial, não havia televisão. Há um episódio que revejo como se estivesse vendo um filme. Foi na década de quarenta, depois do Natal, mais precisamente no dia cinco de janeiro, véspera do Dia dos Reis Magos.

No início de dezembro, as ruas de Porto Alegre se enchiam de pinheiros cortados nas matas do Rio Grande do Sul para serem vendidos aos porto-alegrenses. Eram de todos os tamanhos, para todos os gostos e bolsos. Não havia conscientização, nem fiscalização com o mal que se fazia à natureza. Passado o Natal, aqueles que não eram comercializados, eram jogados pelas ruas, abandonados sem pena. Embora isso seja lamentável, não me lembro de que alguém se preocupasse com esse crime ambiental. Nem eu me dava conta, e não vou comentar isso com tanto atraso.

Naquele ano, metade da década de quarenta, papai chegou em casa, no princípio de dezembro, com um enorme pinheiro. Alegria e diversão para os quatro filhos. Passamos, diariamente a procurar enfeites, fitas coloridas, pequenos objetos para montar uma colorida árvore de Natal. O que fazíamos questão de colocar eram as velinhas que acendíamos na hora do Noite Feliz e os pedacinhos de algodão que imitavam a neve. Nós colocávamos as velinhas numa espécie de prendedor de roupa que prendíamos nos galhos e acendíamos na hora do Papai Noel. Estávamos eufóricos porque era uma árvore excepcionalmente grande, Ia até quase o teto.

Passou o Natal e estávamos na véspera do dia de desmanchar a árvore. Acho que fui eu que convenci meus irmãos para pedir à mamãe para acender as velinhas mais uma vez antes de colocar tudo abaixo. Então, eu ou mamãe começamos a acender as primeiras velinhas. Devem ter sido só uma meia dúzia e tudo começou a pegar fogo, a estalar. Nós só gritávamos sem saber o que fazer.


A sempre elegante Alzira Orlandini com os filhos,
Benito, Mafalda e Leda (em pé da esq. para a dir.)
e Lourenço (à frente).

E o filme que passa na minha mente é meu pai descendo a escada, de terno branco, arrumado impecavelmente para jogar pôquer com os amigos do Clube do Comércio. Ele veio a jato e saltou em cima da árvore para pisoteá-la. Ficou no meio do fogo que crescia com rapidez impressionante. A atitude de papai e de Maria, que jogava baldes d’água em meu pai gritando “socorro, o seu Guido vai se queimar” foi até hilária, mas levou a um final feliz. Não sei como ela conseguiu a água. É possível que o tanque estivesse cheio, com roupas de molho, para, no dia seguinte, colocar ao sol para quarar. Naquele tempo, não havia máquina de lavar roupa nem clorofina.


Maria com a Leda no seu colo, ladeada por Mafalda (esq.) e Benito (dir.). Foto de 1936.

Hoje, quando vejo as casas arrasadas por incêndios e a notícia de crianças que morreram, agradeço a Deus, por ter um pai-herói de terno branco e a presença de espírito da Maria. Tivemos mais sorte que juízo. Não chegou a pegar fogo na cortina junto à árvore e meu pai não se feriu. Só ficou chamuscado e com o terno danificado. Valeu o susto e nunca mais pensamos em acender velinhas num pinheiro seco e cheio de algodão, presa especial para pequenos incendiários. Será sempre uma tragédia anunciada.


José Guido e Alzira Orlandini coms os filhos,Lourenço (no colo)
Mafalda, Leda e Benito (esq, para a dir.)
 


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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