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Verões em Capão da Canoa

Mafalda Orlandini

18.11.2013

Verões em Capão da Canoa

Em 1939, com o nascimento do Lourenço, ficou completa a nossa família: os pais, Guido e Alzira, duas filhas e dois filhos. A cota perfeita para uma família tradicional, completa. Transcorria a Segunda Guerra Mundial, mas nossa vida não foi afetada em nada. Até quando faltou gasolina, não deixamos de andar de carro. Papai colocou o sistema gasogênio no carro e contratou um motorista para não se sujar com o carvão.

Naquele tempo, tirar férias nas praias estava entrando no calendário da classe média. Muitos descendentes de colonos alemães, italianos, papai e alguns amigos elegeram Capão da Canoa para passar alguns dias nos meses de janeiro ou fevereiro. Eram apenas dez ou vinte dias que eram ansiosamente esperados por nós. Íamos em caravana de dois ou três carros porque era uma “viagem” considerada de riscos. Quando chegávamos em Tramandaí, tínhamos que esperar a vez de passar nas “esteiras”. A areia era fofa e os carros ficavam presos. Sempre havia uma junta de bois para ajudar se fosse preciso. Daí em diante, a rota era pala beira da praia.

Capão da Canoa era um pequeno povoado de frente para um mar cristalino e algumas dunas, a leste, e lagoas, rios, matas, e banhados a oeste. Havia, então, três hotéis de madeira e uma série de cabaninhas que eram alugadas aos veranistas. Nós nos hospedávamos num hotel, mas só fazíamos as refeições ali porque passávamos o tempo todo na praia ou em passeios.

Eu já tinha onze ou doze anos quando, com meus irmãos, vimos o mar pela primeira vez. Ficamos deslumbrados. Nunca imaginávamos que fosse assim. Aquelas ondas enormes pareciam querer-nos engolir... Sempre entrávamos no mar, com medo, segurando as mãos dos adultos. Fomo-nos acostumando e aprendendo a aproveitar os banhos, a areia, as brincadeiras. Daí foi só alegria.


Nesta foro de 1942 dá para ver bem o cabelo do papai que faz um V na testa. Mamãe tinha orgulho daquele V, dizia que ele ficava sendo o homem mais lindo do mundo. Bota paixão nisso. Da esquerda para a direita: José Guido, Mafalda e Alzira. Na frente Leda, Lourenço e Benito.

Hospedávamo-nos no Hotel Atlântico e, ao fundo, vêm-se as cabaninhas que alugávamos. As despesas não eram tão assustadoras, pois meu pai não reclamava. Cada um podia levar um convidado: minha mãe levava a cabeleireira, meu irmão convidava um primo, eu, uma amiga. Tudo cortesia do paizão que abria as mãos para fazer os filhos felizes. E amigas de mamãe e amigos de papai para jogar carta não faltavam, pois já viajávamos juntos. Formávamos uma comunidade.

Essas fotos são tão perfeitas, tão representativas que queria voltar no tempo e poder entrar nelas novamente.


José Guido e Alzira cercados pelos filhos e seus amigos (foto de 1942).


José Guido e Alzira com seus filhos em uma curiosa árvore em Capão da Canoa (foto de 1944).

Costumávamos fazer passeios até a mata a oeste e lá tirávamos belas fotos. Sempre tínhamos algo interessante, curioso ou uma novidade para ver. Eram horas muito felizes, divertidas. Por tudo que vivemos naqueles verões, eles marcaram nossa infância porque tínhamos tudo que uma criança precisa para ser feliz: a segurança e o carinho de uma família bem estruturada e o carinho e a atenção de seus pais.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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