Últimas notícias

Colunistas

RSS
O Gambá Intrometido

Mafalda Orlandini

24.03.2014

O Gambá Intrometido

Não sei dizer se ainda é assim, mas, enquanto passei os verões no Imbé, de1964 a 2006, os gambás eram meus visitantes noturnos. Quando fiquei, na primeira noite, na casa antiga, sem o marido, eles devem ter feito de propósito para me apavorar. Passaram a noite correndo no forro da casa, gemendo, pulando, lutando. Cheguei a pensar que eles iam despencar na sala. Procurei não demonstrar para as crianças, no entanto estava com medo.

Quando fizemos a casa nova, pensei que não conseguiriam entrar no forro. Ledo engano, diria um escritor antigo. Demorou um pouquinho e lá estavam eles fazendo a sua orgia noturna. Meu caso não era único, tanto é que meu vizinho, o Guerreiro, preparou uma armadilha para eles. Apanhou uma caixa, fez uma espécie de ratoeira grande e colocava rodelas de abacaxi para atraí-los. Obteve sucesso, pegou um ou dois bichanos. Ofereceu-me gentilmente a ratoeira. Gastei rodelas e rodelas de abacaxi e não consegui apanhar nenhum.


A casa nova

Afinal, nos acostumamos com os intrusos que à noite, às vezes, conseguíamos ver de relance. O maior estrago era nos maracujás que comiam e nos latões de lixo que derrubavam, principalmente, quando havia restos de abacaxi.


A bananeira que os gambás também atacavam.

O susto aconteceu quando a Milena, já adolescente, começou a pedir socorro durante o banho. Eram gritos aflitos, de medo. Realmente, eu não soube o que fazer quando vi um gambá bem criadinho no box com ela. Saiu correndo, nua, fazendo o maior escândalo. O que fiz foi fechar a porta do banheiro. Em seguida, mais calma, ela se enrolou em uma toalha. Enquanto se vestia, avaliamos que estávamos só as duas com aquele “monstro” dentro de casa. O jeito era pedir socorro para os vizinhos.

O primeiro a ser lembrado foi o Lelo ( Leonardo Klein ) que morava defronte. Disse que não iria se aproximar do gambá por nada desse mundo. Foram então chamar o Tiago Lemos que morava ao lado da casa dele. Acharam melhor chamar um terceiro. Foram os três, em comissão, chamar mais um valente, o Gilberto.


Ricardo, marido da Milena. Ao fundo a casa do Tiago Lemos.



Casa do Lelo.

Chegaram os três, confabularam e acharam por bem pegar a caixa de isopor e encurralar o bichano. Quando o Tiago pensou que o bicho estava na caixa, saiu do banheiro com o gambá apenas com o rabo preso. Ele escapou e saltou em cima da Milena. O coitadinho, apavorado com tantos seres desconhecidos querendo apanhá-lo, corria pela casa, subia nos móveis e nas paredes. Os três mosqueteiros ficaram confusos e o d’Artagnan, eu, resolveu pegar a tranca da porta da garagem para espantá-lo. Aconteceu o inevitável: bati, sem querer, num ponto vital do frágil animalzinho e cometi meu segundo assassinato no Imbé ( o da galinha foi o primeiro ). Consternação geral. Ninguém queria matar o gambá, queríamos apenas espantá-lo. A Milena, pivô do evento, chorava desconsolada.

Não terminou aí. Faltava enterrá-lo e ninguém se achou com coragem de fazê-lo. A caixa de isopor´já estava infectada e resolvemos colocá-lo ali para o lixeiro levar. Deixamos o “despacho” na calçada, não demorou muito e uma senhora passou por ali e levou-o. O que fez com o gambá não sei nem se levou um susto, quando viu o que levara.

Pior é que fiquei com remorso quando chegou meu filho e perguntou por que matara o gambá. Qual o mal que fizera além de espiar uma adolescente nua, roubar os maracujás, atacar o latão de lixo e roer as cascas de abacaxi. Era só deixar as portas abertas que ele mesmo iria procurar a liberdade. É isso que acontece na vida às vezes. Por medo do diferente, aqueles que poderiam ser amigos, que poderiam conviver em harmonia, se tornam inimigos mortais e cometem ações que podem ser irremediáveis. Eis mais uma lição de vida: respeite o diferente.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

Deixe sua opinião

Comemoramos hoje - 14.11

  • Dia de São Lourenço
  • Dia de São Serapião
  • Dia do Anjo Nelchael
  • Dia dos Bandeirante
  • Dia Mundial do Diabetes
  • Dia Nacional da Alfabetização