Últimas notícias

Colunistas

RSS
Legalidade e Contrarrevolução meio século depois

Mafalda Orlandini

31.03.2014

Legalidade e Contrarrevolução meio século depois

Têm saído muitas reportagens devido aos cinquenta anos da Revolução de 1964. Então me lembro de outro episódio, o de1961, quando Jânio Quadros renunciou. Não tenho a pretensão de analisar esses dois eventos civis, militares ou sociais tão controversos de nossa história. Quero apenas recordar as emoções que sentimos na família, as ligações e os contratempos que nos trouxeram.

Em 1961, na Campanha da Legalidade, as notícias chegavam pelos jornais e também como boatos assustadores. Ficamos muito nervosos porque diziam que iam bombardear o Palácio Piratini e que pretendiam matar Leonel Brizola. Também morávamos próximo à residência do Governador, onde estava a família dele. Confabulamos entre pais e irmão e decidimos “fugir” para o Haras de Belém Novo.


A renúncia de Jânio Quadros

A primeira preocupação foi pensar na comida, embora na fazenda houvesse muitos recursos. Meu marido saiu do trabalho, fizemos uma lista enorme de mantimentos e de gêneros de primeira necessidade e fomos correndo para o armazém mais próximo de casa. Não sei se já havia supermercado, mas nós costumávamos comprar em um estabelecimento perto de casa. Já havia uma fila enorme, os funcionários fecharam as portas e só deixavam entrar duas ou três pessoas de cada vez. Foi só o tempo de carregar o carro, embarcar e debandar. Em Belém, enchemos o tanque de gasolina, pois avisavam que os postos iriam fechar e não haveria mais combustível.


Brozola comandou a "Campanha da Legalidade"

Os familiares foram todos chegando ao anoitecer e cada um se acomodando com os filhos nos seus próprios dormitórios. Desde então, o rádio ficou ligado. O Hino Nacional tocando, a música da Legalidade, o Governador e outros correligionários discursando e nós ansiosos, atentos, torcendo para não haver derramamento de sangue. Assim passamos quase quatorze dias até que houve a discutida posse de Jango Goulart. Alegria geral. Cada um juntou suas tralhas e voltamos à rotina.

Para nós, os leigos, tudo tivera um final feliz. Era um engano, porque nem todos aceitaram e foram articulando um plano para afastar do poder um grupo de políticos suspeitos de quererem implantar o regime comunista no Brasil. Essa revolução foi longe daqui, em Brasília, no centro do poder, rápida, e, quando nos demos conta, o General Castello Branco já era presidente do Brasil. Não deu tempo para sentir a gravidade da situação.


João Goulart e sua esposa Maria Thereza Fontella Goulart no "Comício da Central" em 13/03/1964.


O general Castello Branco e seus generais.

Minhas lembranças dessa Revolução são particulares. Têm relação com uma casa que eu e meu marido construímos na Rua Dario Pederneiras. Era a casa dos meus sonhos. Construída com todo carinho, inclusive, com o living amplo que eu queria. Em 1968, meu marido faleceu e eu pus a casa à venda. Era uma casa boa, confortável, nova. O primeiro cliente trouxe a esposa e os filhos e comprou-a. Os corretores falavam pouco sobre ele e eu só fiquei sabendo seu nome: Manoel Soares Leães. Só me disseram que ele morava no Rio e precisava comprar uma casa aqui porque ia frequentemente ao Uruguai a negócios e precisava ficar mais próximo.


 Posse do Presidente João Goulart (E), 1° Ministro Tancredo Neves(C), e atrás (assinalado), Manoel Leães.

Só em 1979, quando o Jango morreu e começaram a publicar notícias sobre o fiel piloto que o levara e ao Brizola para o Uruguai, em fuga histórica, é que me dei conta de quem comprara minha casa: Manoel Soares Leães, escudeiro e fiel amigo de Jango nos piores momentos da vida dele. Minha ex-casa passou a ser o trampolim para o popular Maneco atender os interesses particulares do ex-presidente e facilitar suas constantes viagens de amigo e confidente.


Manoel Soares Leães, o Maneco, no avião de Jango, o Cessna 310 - PT-BSP.

Agora, fazendo essa crônica e tendo a internet a meu serviço, pude matar a minha curiosidade, conhecer detalhes sobre esse personagem e vasculhar a participação dele no episódio da Revolução de 1964. Há pessoas que, às vezes, ficam anônimas nas aulas de história da escola, mas não foram apenas espectadores daquela virada histórica. Fiquei admirando esse exemplo de amigo leal, homem corajoso que tive o prazer de conhecer tão rapidamente.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

Deixe sua opinião

Comemoramos hoje - 21.02

  • Dia de São Pedro Damião
  • Dia Internacional da Língua Materna
  • Dia Nacional do Naturismo