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Quem estuprou a Ivone?

Mafalda Orlandini

14.04.2014

Quem estuprou a Ivone?

Na primeira quinzena de abril, foi destaque a polêmica criada em torno da pesquisa do IPEA sobre o estupro no Brasil. Houve repercussão até internacional. Antes de o IPEA se retratar, eu já dissera aos amigos que deveria ser engano. O povo não poderia ser tão cruel e sádico. Logo veio a retratação e eu me lembrei de uma moça que já morreu há uns vinte anos e que teve sua vida ligada a esse tipo de violência.

Não sei exatamente em que ano foi. Deve ter sido em meados da década de setenta. A Ivone bateu à minha porta pedindo emprego de doméstica. O zelador do prédio havia informado que eu precisava de alguém. Mandei-a entrar e fiz uma pequena enquete. Naquele tempo, não era perigoso contratar pessoas sem referências e muitas informações. Ela se dispunha a fazer todo o serviço: cozinhar, lavar e passar roupa (não havia lava-roupa),aceitava dormir no cubículo que chamavam dependência de empregada naquele tempo. E, o melhor, não era muito exigente no salário. Claro que conquistou o emprego.

Tinha menos de vinte anos, era alegre e trabalhava sempre de bom humor. Em menos de um mês, já havia conquistado toda a família, principalmente, os meus filhos. Sempre estava disposta a brincar e a jogar.com eles. E fazia um feijãozinho que nunca vou esquecer. Um belo dia, pediu-me dispensa porque precisava ir à polícia. Assustada, logo perguntei em que encrenca se metera. Com naturalidade, me contou que fora estuprada. Chegara em casa, alguém viera pelas costas, colocara um pano embebido em um anestésico no seu nariz e ela não vira mais nada. Acordou-se, quando a socorreram. Levaram-na depois ao hospital e à delegacia. O delegado, de tempos em tempos, por insistência da mãe dela, ensaiava uma investigação. Limitou-se a pesquisar vizinhos e parentes porque afirmava que o estuprador era alguém das relações dela. Inclusive o pai dela era suspeito e, várias vezes, foi questionado e pressionado.

A Ivone ficou tantos anos comigo que perdi a conta. Ela era hilária, não sei se ficara com alguma sequela ou era problema de um parto difícil como dizia a mãe dela. Seus recados não eram confiáveis. Invertia os números dos telefones e só conseguia ler letras de imprensa. Trocava os nomes das pessoas nos recados. Um dia, disse que um tal de Passarinho telefonara. Só mais tarde, quando ela me disse que era um aluno meu foi que fiz a relação, o nome era Canarinho. Ela, eu percebia, se relacionava bem com os homens, mas nunca teve um namorado, um amor.

A mãe dela trabalhava no Pronto Socorro e queria que ela conseguisse um emprego lá, pois afirmava que a filha ficaria mais segura no futuro. Sempre quando havia uma vaga no hospital, ela ia disputar. Precisou fazer uma carteira de identidade e queria ter uma assinatura. Não conseguia se entender com as letras cursivas. Fiz então um modelo de assinatura por extenso - Ivone ... ... - e ela passou dias copiando até decorar. Quando conseguiu imitar, sem engolir nenhuma letra, fez a desejada carteira que me mostrou orgulhosa. Uma vez perguntei se saíra bem na prova do Pronto Socorro e ela disse que achava que sim porque pusera uma cruzinha em todos os quadradinhos que achara.

Quando meu filho Oscar casou, ele pediu para levá-la para a casa dele. Tive que cedê-la de presente de casamento. Ela ficou vários anos cuidando dele (foi uma bela amizade), até que a sua mãe conseguiu um padrinho para colocá-la na lavanderia do Pronto Socorro. Ali trabalhou até adoecer e sofrer várias cirurgias e não poder mais andar. Ela telefonava de tempos em tempos e nós íamos visitá-la. Não conseguiu andar mais. Fez uma cirurgia que não curou e acabou falecendo antes dos quarenta anos.


Foto da Ivone no primeiro aniversário dos meus netos Milena e Eduardo. Ela os chamava carinhosamente de "A Dama e o Vagabundo", porque a Milena tinha o nariz empinado, era exigente e o Eduardo era menos exigente.

Ela era carnavalesca e tocava pandeiro com maestria e ritmo profissional. Os blocos na vizinhança a disputavam nos Carnavais. Tanto é que seu pandeiro foi o bem mais precioso que deixou e, durante seu enterro, os sobrinhos discutiam quem ia herdar aquela preciosidade. Era como se ficassem com um pedaço da tia muito querida.

Quando eu vi aquela pesquisa, logo me lembrei da Ivone querida. Ela foi muito mais que uma empregada, foi um membro da família, cuidou dos meus filhos com amor. Hoje me faço muitas perguntas sem resposta. A Ivone pediu para ser estuprada? Ela provocou alguém? Uma menina-moça tem culpa de atrair a cobiça do homem-lobo? Hoje, quarenta anos depois, quantas “Ivones” já passaram por essa violência sem terem ideia por quê? A maioria dos casos ainda é tratada com a mesma indiferença e os estupradores continuam impunes e anônimos. Afinal, quem estuprou a Ivone?


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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