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Meu Marido com Adhemar em 1956

Mafalda Orlandini

21.04.2014

Meu Marido com Adhemar em 1956

O Ney tinha seu time favorito, o Internacional. Comprou até uma cadeira cativa, porém não ia aos jogos. Torcia em casa. Tinha suas preferências políticas, mas não era filiado a nenhum partido. Não o vi nunca discutir futebol ou eleições com alguém. Ele gostava mesmo do seu trabalho como professor de Contabilidade do Rosário, do Colégio Irmão Pedro e de exercer a Direção do SENAC. Ficava muito feliz quando tinha oportunidade de fazer um bom discurso. Por tudo isso, fiquei surpresa, quando chegou da Argentina com uma foto de Adhemar de Barros  e a entregou com certa emoção


Foto em discurso no Salão Nobre do SENAC (jan/1965)
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Ney está de pé.

O que eu conhecia de Adhemar era folclórico. Por seu jeito popular e descontraído de governar, não era deixado em paz pelos chargistas e cartunistas. Ouviam-se críticas à caixinha do Adhemar e às obras de Dona Leonor, sua esposa. Seus próprios seguidores defendiam-no com uma brincadeira “o Adhemar rouba, mas faz”. No rádio, ouvia-se o Alvarenga e o Ranchinho, parodiando uma propaganda do Melhoral: “Ademá, Ademá é mió e não faz má”.

As críticas eram muitas. Uma das suas obras no Vale do Anhangabaú logo recebeu o cognome de “o buraco do Ademar” porque, quando chovia muito, enchia de água. Uma piada do tempo em que era governador foi muito divulgada. Discursando em um comício, dissera, apalpando o bolso que naquele bolso nunca entrara dinheiro do povo. Um gaiato gritou da assistência: “Calça nova, Governador”. Era acusado pelos opositores de corrupto, foi cassado e exilou-se na Argentina e na Bolívia. Essa era a imagem de Adhemar de Barros que eu fazia.


Foto de Ney Alves Pereira com Adhemar de Barros (25/07/1956)
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Adhemar é o terceiro da esquerda para a direita, Ney é o quarto.


Dedicatória do Adhemar para Ney
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Agora tenho todo tempo do mundo e resolvi organizar os álbuns de fotografia da família e catalogar as fotos avulsas. Deparei-me com a foto em questão. Eu não gosto de alimentar dúvidas e adoro História. Pensei: é agora que vou descobrir por que meu marido admirava Adhemar.

Assim que comecei a investigar, começaram as surpresas. Primeiro, procurei me localizar no tempo. Nasceu em Tabatinga em 1901 e morreu em Paris em 1969. Era formado em Medicina, fez Especialização no Instituto Oswaldo Cruz, estudou nos Estados Unidos e fez estágios em vários países da Europa. Era aviador e poliglota: fluente em alemão, inglês, espanhol e francês. Era um homem culto, muito diferente da ideia que eu fazia dele.

Começou sua carreira política em 1935 como deputado estadual. Foi Interventor Federal no tempo de Getúlio Vargas, foi duas vezes Governador de São Paulo e Prefeito. Desde que começou sua vida pública, fez questão de dizer que seguiria um principio de Washington Luiz: ”Governar é abrir estradas”. Realmente, cumpriu o prometido. Tem seu nome ligado às mais importantes rodovias de São Paulo (Anchieta e Anhanguera) e uma quantidade de outras estradas e obras. Por causa de suas ideias, tinha muitos opositores que pensavam que gastar dinheiro em asfalto era desperdício e que deveria conservar e construir estradas de chão batido. Substituía políticos por técnicos o que causava muitos descontentamentos.

Preocupou-se com outros empreendimentos: usinas termelétricas, obras e ações de caráter social, escolas no interior, bibliotecas, hospitais, sanatórios e tantas coisas que é impossível enumerar todas. Ele costumava repetir uma frase: ”São Paulo não pode parar”. Enquanto foi prefeito de São Paulo, orgulhava-se de dizer ”São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo”.

Quando o tempo passa, entendemos melhor a história. Agora, depois de 58 anos (a dedicatória e a assinatura de Adhemar têm a data de 25/07/1956) posso entender a admiração de meu marido. Ele ia constantemente a São Paulo a trabalho e conhecia o outro lado daquele homem público. Apesar de todo folclore, acertos e erros, agora sei como ele marcou sua passagem na história do Brasil.

Eu adoro História e hoje aprendi mais uma vez com ela como é importante consultá-la sempre. Para me desculpar com os “ademaristas” pela minha ignorância, aqui vai uma frase dele que acho muito pertinente: ”Por onde passar a estrada, vai o transporte, o médico e o livro”.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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