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Diário de Romeu Issa: as baldeações

Mafalda Orlandini

16.06.2014

Diário de Romeu Issa: as baldeações

O dia dezoito de julho prometia ser um dia cheio. O encarregado do hotel acordou-nos às cinco e meia. Paixão fora passar a noite na residência de sua família que morava em Livramento. No entanto já estava lá com seu irmão Nildo e um caminhão para transportar nossa tão volumosa bagagem.

Pouco depois, dirigimo-nos à estação onde nos esperava um vagão especial, gentilmente cedido pela Viação Férrea. A bagagem foi transferida do caminhão e despedimo-nos de Paixão e Nildo que permaneceriam em Livramento junto a sua Família.


Rui Paixão Coelho.

Todos sentados em seus lugares, enrolados em suas mantas, pois fazia muito frio, esperamos ansiosos um prometido café bem quentinho para enfrentar a viagem que seria longa. Primeira decepção, porque veio um café frio que mais parecia uma água suja. Acompanhava-o um sólido e inquebrável sanduíche, não uma torrada. Se um de nós quisesse uma maçã, deveria pagar dez cruzeiros e se quiséssemos uma dúzia de bananas para o grupo, custaria dezoito cruzeiros. Constatamos que, afinal, estávamos no Brasil.

Viajamos por algumas horas, passamos por Rosário do Sul e chegamos a Cacequi. Fizemos um rápido almoço e transferimos nossas numerosas malas para outro “Maria Fumaça” porque aquele vagão não iria até Santa Maria. Contávamos e recontávamos cada volume, pois não queríamos perder parte da carga preciosa. Ficou combinado também que em Santa Maria passaríamos para um trem Minuano.


O Trem Minuano

O trem Minuano não admitia atraso e partiria imediatamente. Aí surgiu o problema: não queriam ou não podiam levar toda aquela parafernália dos excursionistas que haviam comprado a metade da Argentina. Depois de alguma discussão, ficou estabelecido que os maiores volumes seriam registrados e enviados no dia seguinte. O trem partiu com pontualidade inglesa, com todos, agora sim, confortavelmente instalados e comentando o seu moderno e luxuoso interior. Não demorou muito para que alguns dormissem sossegadamente, mas outros comentavam momentos inesquecíveis dessa jornada. O trem andou rápido e não demorou a chegar a Porto Alegre. Cruzamos a última ponte antes de Porto Alegre e alguém começou a cantar a Valsa da Despedida logo acompanhado por um tom lamentoso e o ambiente tornou-se inundado de melancolia.


Interior do Trem Minuano.

Já são passados vinte dias de nossa partida, tempo em que fizemos parte de uma grande família, a qual dentro em pouco estará desmembrada, com seus componentes tomando o caminho do lar.” (Romeu Issa 18 /06/1957)

Ele ainda faz considerações do que essa viagem representou para ele, agradece o empenho do líder Rui Paixão e o honroso acompanhamento do casal Pereira. Quero acrescentar que revivi cada momento com grande emoção. Lamento não ter encontrado o Romeu para falar da preciosidade desse documento.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

  • Roberto Henry Ebelt (16.06.2014 | 10.51)
    Deve ter sido realmente uma maravilhosa viagem. Gostei muito de todos os capítulos dessa aventura. É pena que mais de 50 anos depois ainda tenhamos ferrovias com bitola estreitíssima no RS, menor do que a distância entre as rodas dos atuais automóveis, quando deveríamos usar, em vez de 01 metro, algo em torno de 1,60 m. E, sem ferrovias modernas, podemos deixar de lado a pretensão de um dia avançarmos ao segundo mundo. Felizmente a população do RS tende a diminuir, o que nos dá esperanças de, um dia, a população do estado ficar de acordo com a infraestrutura de transportes que temos no RS e que não acompanha, nem de perto, o aumento da frota gaúcha de automóveis. O Ricardo que o diga. A RS 40, de manhã, já tem velocidade média inferior a de um maratonista. Porém, segundo o Governador, não somos um povo acomodado. Parabéns, Mafalda. Obrigado por essa maravilhosa viagem aos anos 50.
  • Resposta do Colunista:

    Fico muito contente, quando vejo teu interesse em acompanhar minhas lembranças e, mais ainda, quando confirmas a veracidade das difernças ou que ainda  o Rioi Grande pouco mudou em algumas coisas.Um abraço, obrigada

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