RicardoOrlandini.net - Informa e faz pensar - Colunista - Minha Copa Inesquecível

Últimas notícias

Colunistas

RSS
Minha Copa Inesquecível

Mafalda Orlandini

23.06.2014

Minha Copa Inesquecível

Só se ouve falar em Copa. Só se comenta a Copa. Só se respira a Copa. Só se fala mal da Copa. Às vezes, se fala bem. Só se contam histórias da Copa. Eu também tenho uma história inesquecível para contar. Foi em 1958. A primeira vez em que o Brasil conquistou a Copa.

Era tudo muito diferente. Não havia televisão em Porto Alegre. Mesmo que houvesse, não havia tecnologia para transmitir jogos de futebol. As mulheres não participavam das conversas de futebol que era assunto só para homens. Quando uma mulher se atrevia a dar um palpite, era quase sempre motivo de piada. Isso justifica que eu não me emocionava com o tema. Só me lembrava, vagamente, da comoção geral de 1950, quando perdemos o título para o Uruguai. Ouvi e sofri, junto com os familiares, a derrota comentada e chorada pelos locutores nos últimos minutos da partida. Sei também que ela ocorria pela primeira vez no Brasil. No Maracanã. Era o máximo que uma jovem de vinte anos sabia desse esporte tão incensado pelo modernismo.

Voltemos a 1958. Meu marido havia recebido uma proposta, que considerou excelente, da Matriz de São Paulo. Avaliamos e resolvemos mudar-nos para a capital paulista. Eu estava no oitavo mês de gestação do meu segundo filho. O Ney foi antes para alugar um imóvel e me aguardar por lá. Em quatro de maio, nasceu o Ricardo. Esperei um mês e fui com os filhos ao seu encontro. O avião atrasou por causa do bebê. Primeiro porque eu não comprara seguro de vida para ele (eu não sabia que era necessário). Depois, por causa de uma turbulência avaliada como muito violenta para atravessar com uma criança recém-nascida; tivemos que descer em Curitiba. Meu marido, no aeroporto, nos esperava “nervosão” e nos abraçou chorando, porque entendeu que o avião tivera que aterrissar por causa de uma pane.

São Paulo se me apresentou como um mundo completamente diferente. Sem parentes ou amigos, com um filho de quatro anos, um bebê de um mês e um marido que saía ao amanhecer e só voltava para dormir. Foi um período de adaptação bastante sofrido. Estava muito acostumada a passar os fins de semana com os familiares na granja.

No primeiro momento, ele comprou uma televisão para me distrair. Devia haver o clima da Copa, mas não se assemelhava nenhum pouco ao que é hoje. A TV era em preto e branco. Os programas não eram gravados ainda e havia muitos cortes, muita confusão. Daí eu me distraía com o programa do Chacrinha ao vivo, que era o sucesso da hora. Uma vez, até foram obrigados a interromper um show da Maísa porque ela estava mal e não conseguia cantar. O futebol só começou a ser televisionado em 1970. As rádios eram ótimas, famosas, mas eu nunca ouviria comentários da Copa, já que não entenderia.


O Programa "Discoteca do Chacrinha" nos anos 50

Eu só tenho bem marcado o dia em que o Brasil jogou na Suécia, país sede em 1958, contra os anfitriões. Era um jogo muito difícil com a torcida contra. Entretanto os brasileiros estavam confiantes e com atletas excepcionais. Nós e todos os vizinhos, percebia-se, também estavam acompanhando a narração emocionada dos locutores. E, quando foi anunciado o fim do jogo, a vitória, todos saíram à rua gritando campeão... campeão.... Esse foi o momento de fazer amizades. Todos se abraçavam, rindo, comentando. E foi aí que comecei a prestar atenção aos nomes que passaria a ouvir por toda a vida: Garrincha, Pelé, Vavá, Zagalo, Mazzola, Didi, e muitos outros. Todos apoiaram a ideia de ir para a Avenida Paulista festejar.


Povo em festa na cidade de São Paulo após o Brasil vencer a Suécia e levar seu primeiro título mundial.

Claro que queríamos ir e os filhos pequenos teriam que acompanhar. Não tínhamos com quem deixá-los. E foi assim que meu bebê de um mês e pouco, o Ricardo, foi para a Avenida. Não passou fome, nem susto, com certeza, porque era só dar o peito cheio de leite quando reclamava. E desfilamos com aquele carrinho, um Citroen preto, antiguinho, no meio daquela multidão festejando, gritando: pulando, dançando. Surgiam bandeiras aqui e acolá. Dos edifícios choviam papéis e balões brancos, verdes, amarelos e azuis. Eu nunca vira um espetáculo assim e nunca esquecerei. Foi lindo, memorável, mas, se fosse hoje, penso que seria temerário enfiar-se no meio daquela multidão.


Os campeões de 1958


O Capitão Bellini levantando a Taça do Mundo

Sei, melhor do que nunca, que vivi um momento histórico e de orgulho para os brasileiros, sei também que, ao receber a Taça, o capitão da equipe levantou orgulhosamente a Taça bem alto com as duas mãos pela primeira vez na história da Copa. Hoje, o belo gesto do capitão Bellini é imitado por outros vencedores.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

Deixe sua opinião

Comemoramos hoje - 18.08

  • Dia de Santa Helena
  • Dia do Anjo Lelahel
  • Dia do Estagiário