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Vó Alzira ou Vó Guida

Mafalda Orlandini

30.06.2014

Vó Alzira ou Vó Guida

Vó Guida era o apelido carinhoso e meio safado que meu cunhado Schifino usava para se dirigir à minha mãe. Nada mais pertinente, porque minha mãe, esposa dedicada e apaixonada, adivinhava o que meu pai queria. Adorava mantê-lo sempre satisfeito e muito paparicado. Era uma sombra dele. Casara aos dezessete anos, com o homem de sua vida, tivera quatro filhos com ele e assim se passaram setenta e cinco anos  de convivência. Vó Guida passou a ser um apelido usado por outros familiares.


Alzira em 1944

Entre minhas ocupações atuais, estou revisando e consertando os estragos que o tempo fez nos álbuns de fotos da família. Manuseando o acervo familiar, me deu saudades da minha mãe. Ela era bonita e vaidosa. Seus vestidos e chapéus eram sempre caprichados e variados. Era uma mulher do lar e não gostava de sair para fazer compras. Cabia a mim comprar os tecidos (nas melhores lojas da cidade) e ela só ia às modistas para escolher os modelos. A Wilma era uma costureira que até vinha em casa. Durante muitos anos, manteve cabeleireiras que vinham penteá-la semanalmente e, quando ia veranear, convidava-as para irem junto. Eu me lembro de duas, a Alma e a Erica que passaram alguns veraneios conosco. É claro que meu pai pagava a cortesia.


Da esquerda para a direita. Os irmãos, Mafalda, Leda, a cabeleireira Alma, Lourenço e Benito
Capão da Canoa - 1942

Nós sempre tínhamos hóspedes e ela gostava de ir passear na Rua da Praia. E degustar um chá quentinho com doces à tarde nas confeitarias famosas. Daí as inúmeras fotos que encontrei no álbum.


Vó Anna, Alzira e Isaura Ferrari na Rua da Praia na década de 40

Tinha um capricho especial em relação aos filhos. Mantinha-os sempre muito bem arrumados, com roupas limpíssimas e calçados novos. Entretanto não os atormentava para não se sujarem e deixava-os brincar à vontade. A nossa infância foi tranquila. Ela cuidava para não faltar material escolar e livros. Não ganhávamos brinquedos como as crianças de hoje porque não era costume, mas cada um tinha uma bicicleta (ou duas bonecas, não mais), e uma sala de jogos da casa fazia nossa alegria: mesa de pingue pongue, mesa de totó (futebol), mesa de jogo de botões, soldadinhos de chumbo, bolinhas de gude, corda para pular e livros e gibis para ler. Tínhamos também uma vitrola, muitos discos, um piano, duas gaitas e aulas para aprender a tocar piano ou gaita. Hoje os pais oportunizam aulas de línguas, esportes, computação, dramaturgia. A educação familiar era muito diferente.


Leda, Benito, Mafalda, Alzira e Guido (1937)

No que minha mãe mais se destacou foi na culinária. Ela, como neta de alemães, conhecia a cozinha alemã. Quando casou, minha avó Anna, filha de italianos, ensinou-lhe os costumes da família, o que enriqueceu suas habilidades culinárias. Lá em casa, sempre houve empregadas para tudo, mas mamãe comandava a cozinha. Ela adorava fazer o que havia de melhor no cardápio italiano e alemão; polenta com perdizes, frangos assados, massas de todos os tipos, molhos suculentos, bolos, calças-viradas, docinhos de polvilho, pães, cucas e lá vai... Quando qualquer festa se aproximava, fazia latas de biscoitos pintados e outros quitutes. Tinha uma máquina de fazer doces de polvilho, semelhante a uma máquina de moer carne.

Fazia uns sonhos que eu nunca comi igual. Eram recheados. Ela espichava as massas, colocava a goiabada espaçadamente e, para cortá-los, apertava com um copo. Colocava um quilo de banha de porco que meu pai trazia do Frigorífico em uma panela de ferro. Os sonhos tinham que nadar na banha bem quente. Certo dia, eu nunca esqueci, pediu para a irmã, a tia Aracy, ver se já estava quente para fritar. Para experimentar, ela colocou o dedo na banha fervendo. Foi um grito, uma queimadura e um susto geral.


Aracy e Alzira na Rua da Praia (década de 40)

Mamãe tinha duas inseguranças que a incomodavam. Uma era ter pouco estudo. Em Roca Sales, não era possível estudar muito. Estudou até a quarta série, em um só livro que sabia de cor e salteado, a famosa Seleta. Lia bem, tinha dúvidas na ortografia como todo mundo, mas tinha uma letra muito bonita. A outra insegurança era os ciúmes do papai que achava o homem mais bonito do mundo. Não tirava os olhos dele quando se aproximava de mulheres. Não demonstrava, não fazia cenas de ciúmes, mas sofria quando via alguma dando em cima dele, e se lamentava comigo.


Alzira e Guido no aniversário de 80 anos do papai e sessenta de casamento.

Se fosse escrever tudo que lembro ao manusear as fotos, não iria terminar nunca. Vou encerrar afirmando que ela foi uma mãezona em todos os sentidos. Deixou no coração dos que conviveram com ela muito amor, admiração e saudades.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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