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Meu irmão Benito

Mafalda Orlandini

18.08.2014

Meu irmão Benito

Eu tive dois irmãos, o Benito e o Lourenço. Quando o Lourenço nasceu, o Benito, como irmão sete anos mais velho, assumiu cuidar do bebê e protegê-lo. Ao crescerem, pela diferença de idade, no entanto, foram tendo interesses diferentes, e cada um procurando divertimentos mais de acordo com sua faixa etária. Mesmo assim, sempre foram grandes amigos.


Mamãe e seus quatro filhos na frente da casa da Rua Visconde.
O Benito gostava de ficar com o uniforme do Colégio Rosário

O Benito já era um adolescente e o Lourenço, um menino. Por isso quem sentiu mais deixar aquela casa foi o Benito que tinha todos os seus amigos ali. Sempre dizia que um dia, quando tivesse dinheiro, iria morar ali novamente. Ele era um menino calmo, ocupava-se com jogos, brinquedos, leituras dos “gibis”. Era muito responsável e não me lembro de que fizesse muitas travessuras. Só sei de uma da qual eu participei e já contei para todo mundo. O Benito surrupiou a chave do carro do papai e fomos brincar de motoristas. Levamos a irmãzinha de dois anos que abandonamos, quando o automóvel começou a andar de ré. Mesmo puxando pela memória, não me lembro de mais nada.


Benito com o Lourenço no colo erm frente a casa da Visconde.


Betito com seu time de futebol no Morro Ricaldone (1946).
Ele é o quarto da esquerda para a direita.

Foi um estudante dedicado e estudou sempre no Colégio Nossa Senhora do Rosário. Nunca foi reprovado, nem provocou queijas dos professores. Tinha uma caligrafia perfeita e caprichada. Gostava de Matemática e escolheu a profissão que o atraía, Contabilidade. Aliás, pelo seu tipo sério, por apreciar tudo às claras, a profissão foi a sua cara. Seus amigos eram os colegas do colégio, mas os companheiros inseparáveis da Rua Visconde foram as suas maiores amizades. Sempre senti o Benito meio tímido, meio reservado. Tanto é que foi quando a carrocinha da Prefeitura capturou o Vira-latas da turma, o Xiru, que o vi mais irritado e combativo. Batalhou para conseguir o dinheiro da multa e salvar o Xiru da morte


Turma da Rua Visconde em frente a nossa casa (1946).

Sei que gostava de dançar e foi a várias reuniões dançantes com amigos Éramos sócios do Leopoldina Juvenil, no entanto só o frequentávamos esporadicamente. Nossos pais encaravam o namoro com naturalidade, e faziam questão de conhecer os candidatos e, se quisessem, que viessem namorar em casa. Como o Benito era muito certinho, sempre ficava meio de bico comigo quando eu trocava de namorado. Acho que se casou com a primeira namorada, uma moça que morava na mesma rua, a Giselda. Foi a única que ele levou lá em casa.


Os quatro irmãos nos quinze anos da Leda.

Tenho uma lembrança tragicômica de um episódio com o Benito. Ele era de pouca conversa e não deixou claro que não voltaria da fazenda no mesmo dia. Não sei por que meu pai ficou tão preocupado. É que ele tinha ido para lá com o dinheiro do mês para pagar o pessoal. Só sei que, como ele não apareceu até o meio dia do dia seguinte, o Ney e o Schifino, a pedido do meu pai, começaram a procurá-lo. Lembremos que na casa da fazenda não havia telefone, não existia ainda o celular e a estrada para lá era de chão batido. Foram à polícia, a hospitais e até ao necrotério. Meu marido disse que, pela manhã, havia chegado um cadáver não identificado e, quando o funcionário abriu a gaveta, ele achou o morto parecido com o Benito. Não demorou muito e meu irmão surgiu tranquilamente sem entender nada.


Turma que ia aos fins de semana para os churrascos de cordeiro na fazenda do papai.

O Benito era o churrasqueiro-mor na granja dos fins de semanas. Quando chegava o período de sacrificar os cordeiros mamões ele era escalado. Nunca comi nem comerei churrasco de cordeiro mais gostoso e perfeito. Nós já éramos todos casados, tínhamos filhos que adoravam aqueles churrasquinhos e as crianças vibravam com brincadeiras com os primos nos fins de semana.


Retrato da família do Benito na época que se mudou para Florianópolis.

Os nossos filhos ficaram adultos e a fazenda foi vendida. A vida andou muito depressa e o que era nosso lazer preferido acabou. Minhas sobrinhas foram morar em Florianópolis. O Benito e a Giselda, sempre que podiam, viajavam e iam curtir os cinco netos. Passavam temporadas lá. Era justo que fossem matar as saudades. Daí em diante, passávamos meses sem nos vermos.


Tags: Mafalda Orlandini. crônicas, textos


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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