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Vera Maria, uma mulher guerreira.

Mafalda Orlandini

27.10.2014

Vera Maria, uma mulher guerreira.

Tenho uma cabeleireira, amiga e confidente há quarenta e quatro anos. Eu a conheci como aprendiz de uma estética na Rua Ramiro Barcelos que era onde eu morava em 1970. Sua tarefa era colocar os rolinhos nas cabeças das clientes antes de irem para o secador. Depois, a cabeleireira, dona do estabelecimento, soltava os cabelos e fazia os penteados. Certa vez, a estética estava lotada e a garota que coordenava os atendimentos me passou para trás da fila, favorecendo outra cliente. Chamei a moça que havia enrolado meu cabelo e pedi para ela terminar o atendimento. Ela me olhou assustada e disse que não poderia fazê-lo. Ameacei tirar eu mesma os rolinhos, passar a escova e ir embora. A proprietária, que não era boba, viu, balançou a cabeça, autorizando. Veio sorridente retocar o meu penteado e pedir desculpas pelo engano ( ? ) da funcionária. Desde então, passei a ser cliente da moça. Mudou de emprego e eu fui atrás. E mudou e mudou muitas vezes. Não importava o bairro, e eu continuava cliente. Fidelidade a toda prova.


Vera Maria Flores e seu sorriso.

Fiquei surpresa e contente ao ser convidada para o seu casamento. Foi a primeira festa da família da Vera a que fui na Associação Floresta Aurora. Quando nasceu a primeira filha, a Luciane, ela parou um tempo de trabalhar. Nós já éramos muito amigas e ela continuou a me atender. Estava morando com a sogra e eu era a única cliente. Desse tempo, temos uma história digna de novela. A Vera acabava de me fazer as unhas e o cabelo, juntava as tralhas da Luciane e eu as levava para passar o fim de semana na casa da avó materna. Era noutro bairro e ela não podia desperdiçar em táxi. Na segunda feira, eu dava um jeito de trazê-la de volta  Nos anos seguintes, a Vera teve mais três filhos


Luciane ladeada pelos irmãos: Sílvio, Leonardo e João. Luciane hoje é professora e trabalha em Viamão.

Tornou-se hábito arrumar o cabelo e fazer as unhas com ela toda a semana e comentarmos a nossa vida. Até os nossos maiores segredos, alegrias e contratempos. Toda semana, brincávamos, comentando o capítulo “inédito” da novela das nossas vidas. Não duvidem das coisas que se fazem pelos amigos. Quando eu passava o verão no Imbé e a Vera ia para casa das tias em Cidreira, ela ia ao Imbé para me visitar e fazer o meu cabelo e unhas. Era muito divertido e os filhos cooperavam, até levavam-na de carro.


Aniversário de quinze anos da Luciane

A festa do casamento foi a primeira, mas eu não perdi mais nenhuma, pois era convidada de carteirinha: aniversários dos filhos, da família, casamentos, formaturas, chás com as tias, oitenta anos da mãe dela... Pena que naqueles tempos não havia o hábito de registrar tudo no celular. O que importa é que, em minha cabeça, ficaram gravadas como as mais alegres e descontraídas festas a que fui. Não sei se foi nos sessenta anos dela ou nos oitenta da mãe que houve até show de travestis e gays, roda de samba, além de todo mundo dançando animado. Para mim era sempre o máximo. Diferente. Entrei de carona nas festas da família Flores.


Os filhos da Vera: Sílvio, formado em Ciência da Computação: João muito requisitado para serviços de Informática; e Leonardo, que trabalha em Turismo, viaja muito e já fez vários cursos fora do Brasil. À esquerda, a Juliane, filha do coração, que ela cria com dedicação de mãe.

Há três anos, quando comprei a passagem para o andar de cima e me devolveram, tudo isso foi interrompido. Eu parei de dirigir e arrumava o cabelo e as unhas, esporadicamente, quando uma tia dos meus netos vinha à minha casa. A Vera estava cuidando de duas netinhas até que fossem para as creches. Faz dois meses, resolvi perguntar se ela não poderia voltar a cortar o meu cabelo pelo Método Pilomax como fizemos durante dezessete anos. Ela aquiesceu prontamente e faz dois meses que tudo voltou a ser como antes. Por enquanto, vamos ter uma tarde por mês para botar em dia o que aconteceu nas nossas vidas nessa inevitável interrupção.

Tudo que nós duas vivemos nesses quarenta e quatro anos, merece uma crônica. Sei do carinho que a família dela tem por mim e sempre pergunta como estou e quando poderei voltar a frequentar o salão e as festas. A Vera é cheia de surpresas. Era uma comemoração em que estava sendo homenageada por amigos por seu trabalho na comunidade. Ela não teve oportunidade de estudar muito, mas preparou um discurso de agradecimento impressionante, de uma autodidata. Com voz firme, português correto, foi agradecendo às pessoas que sempre a ajudaram durante a vida. Em dado momento, começou a relatar fatos de sua vida e falar de pessoas que a tinham auxiliado nas horas difíceis .Eu me reconheci em muitos episódios. Pensei que não faria, mas ela anunciou meu nome. Há muito tempo eu não encabulava, mas fiquei vermelha que nem um pimentão ao ser aplaudida. Uma convidada que estava ao meu lado, gentilmente, comentou: Como estás vermelha!!!


A Vera cercada por amigas.

Quero enfatizar minha grande admiração por essa mulher guerreira: cabeleireira, manicure, artesã, quituteira, tecelã, vendedora de quentinhas, ou de qualquer coisa que a ajudasse a manter seus filhos. Na realidade, o que essa Mulher Maravilha fez de melhor mesmo foi a educação de seus filhos que hoje são seu orgulho. Quanto a mim, ela foi uma amiga de todas as horas e me aproximou de uma família muito unida e festeira que me recebeu com carinho e que representa muito bem sua raça.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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