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Lições da Copa 2014

Mafalda Orlandini

17.11.2014

Lições da Copa 2014

As maiores emoções em relação ao futebol que eu já havia sentido foram na Copa de1958, desfilando na Avenida Paulista com meu filho recém-nascido no colo e torcendo pelo Brasil em outras competições mundiais. No que diz respeito à escolha de um time preferido, sempre me mantive em cima do muro. Explico por quê. Meu marido, meus filhos e um neto sempre torceram pelo Internacional. Meus irmãos e sobrinhos sempre foram gremistas apaixonados. Daí, que, quando o Grêmio joga, eu sou gremista e, colorada, quando o Inter luta para vencer. Nos Grenais, acontece o óbvio, quero sempre um empate. Nas discussões familiares, fico em silêncio.

Meu pai foi do tempo do futebol amador. Era torcedor e sócio do Esporte Clube São José. Um dia, chegou em casa, dizendo que estava desiludido porque os jogadores exigiam uma gratificação extra como estímulo para jogar melhor em um jogo decisivo. Não queria mais saber de futebol, pois achava que se devia jogar apenas por amor ao clube e ao esporte. O legítimo futebol amador. Hoje resolvi pesquisar sobre esse clube e fiquei encantada com sua “odisseia”. Foi fundado por um religioso e alunos do Colégio São José. Cada um comprou sua camiseta e dava quinhentos réis para manter o time. Não havia ainda sócios suficientes para manter o “Clube mais simpático do RS”.


Atual estádio do São José, o Zequinha, clube fundado em 1913 que só conseguiu ter seu estádio em 1940.

Tenho uma lembrança meio desagradável do Grêmio da década de quarenta. Mais ou menos em 1945, tínhamos uma lavadeira que vinha lavar e passar roupa duas vezes por semana. Claro, não havia máquina de lavar. Eu gostava de conversar com a dona Mazilde e ela me convidou para ser madrinha da Denise, quando ela nasceu. Um dia, me contou que o marido estava muito triste. Torcedor fervoroso do Grêmio, não fora aceito como sócio porque era negro. Foi o primeiro sinal de racismo de que me lembro. O meu compadre era um homem bom, honesto, trabalhador e fora discriminado pela cor.

Fui mais duas vezes assistir a jogos. Aos dezesseis anos, fui convidada para madrinha de uma turma de futebol de salão. Fiquei com a lembrança confusa de um bolaço violento que levei no rosto, da preocupação dos afilhados com o ocorrido e da dor de cabeça no momento de entregar as medalhas.


Eu, como madrinha e os afilhados.

A segunda vez em que fui a um jogo foi por insistência do então meu noivo. O estádio dos Eucaliptos era, na ocasião, o orgulho do Internacional e ele quis me levar para conhecê-lo. Não me lembro de haver mulheres, pois não era comum elas irem a jogos. Senti-me deslocada. Desistiu de me levar. O que valeu é ter conhecido o Eucaliptos, que, embora agora demolido, ficou na história do Internacional.


Estádio dos Eucaliptos.

Com o advento da TV, a transmissão dos jogos, a preparação para a Copa, as incursões nas redes sociais e a leitura do suplemento esportivo de ZH, o assunto obrigatório era o esporte das multidões. As críticas sempre foram contundentes e diárias. Com razão, rebelavam-se aqueles que defendiam a tese de que o dinheiro gasto com a Copa seria melhor se aplicado em saúde, educação e segurança. Houve muitos “caranguejos” ferrenhos que torceram para tudo dar errado. Não avaliavam como isso seria vergonhoso para o Brasil. Outros, como eu, temiam pelo insucesso. Enfim. A Copa aconteceu e tudo deu mais ou menos certo até que houve o tal do “apagão, e a tão sonhada Taça foi para o espaço.


O novo Estádio Beira-Rio, reformado e lindo, um dos legados da Copa 2014.

Até aqui, estive divagando sobre antes, mas o que pretendo avaliar é o que aprendi e as lições que a Copa deixou. Quem entra num jogo deve saber ganhar ou perder. Não foi o que aconteceu com muitos brasileiros que entraram numa caça às bruxas, em busca de culpados e ofendendo a deus e ao diabo. Não sei como os “culpados” resistiram à hecatombe. Devem ter passado, no mínimo, por uma violenta depressão. O tempo, no entanto, já está curando as feridas e a seleção já tem outro técnico, o Dunga, que tem a minha simpatia. O que saiu errado servirá de lição e nosso futebol ressurgirá cem vezes mais forte e melhor. E eu aprendi que o futebol deve ser encarado com mais seriedade, mais responsabilidade. É um esporte que desperta paixões, que envolve força, técnica, treinamento constante, superação, amor, raiva, dedicação, dinheiro, muito dinheiro e continuidade de planejamento. Só assim, o Brasil voltará a ser famoso como o pais do BOM futebol. Ah! Ia me esquecendo. Encontrei um time para torcer pelo seu futebol e atividades sociais, o Zequinha, o Esporte Clube São José.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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