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As mães agradecem.

Mafalda Orlandini

24.11.2014

As mães agradecem.

Milena, minha neta, ás vezes, aparece para almoçar durante a semana. Tempo contado porque é no intervalo do meio-dia do Instituto Santa Luzia onde ela faz um belo trabalho como Pedagoga. Enquanto almoça, fala pelos cotovelos porque tem muito que contar para sua avó e confidente. Nessa vez, um dos assuntos abordados eram as incontáveis vacinas que meus bisnetos costumam fazer. Na véspera, haviam tomado mais uma injeção, a de um vírus novo transmitido pelo mosquito da dengue. Contou como se comportaram: um deles brincando, o outro apavorado, pois anda ressabiado de muitas injeções que tomou para fazer uns exames.


Meus bisnetos Pedro e João com a vacinação sempre em dia.

Quando ela saiu, comecei a refletir e a comparar com outros tempos. As famílias viviam sob o temor de doenças infantis letais ou deformantes. Comecei a listar as mais temidas e encontrei exemplos das vezes em que tive contato com elas. Eu lembro que a Secretaria da Saúde exigiu que eu fizesse vacinas (BCG e tétano), quando comecei a lecionar. Claro, durante a vida, houve muitas outras vacinas, inclusive, a da gripe A, a que recorro anualmente.

As mais temidas eram a poliomielite, o sarampo, a coqueluche e a caxumba. Certa vez, houve um surto de rubéola e, na escola em que eu lecionava, apareceram dois alunos com a doença. O fato me marcou muito. Uma professora pediu licença porque uma deformidade poderia atingir o feto. A diretora não autorizou, a professora se contagiou, e perdeu seu bebê. Isso foi em 1964 e, depois, quando falava na diretora, ela se referia a ela como assassina.

Também me lembro das muitas crianças com defeitos e aparelhos nas pernas por terem tido poliomielite. Lá no Haras em Belém Novo, em um domingo, um casal pediu para passear pela granja com os três filhos. Dois desceram do carro e brincavam, comentavam, corriam. O terceiro ficou olhando com um olhar triste e as pernas cobertas. A mãe explicou que ele não podia andar porque tivera poliomielite.

O sarampo, para mim, sempre foi encarado como uma doença comum e não pensei que poderia ser mortal. Mudei de opinião, quando a Jane, minha atual acompanhante, contou que, quando tinha oito ou dez anos e morava no interior do interior de Sobradinho, em uma região rural muito pobre, houve um surto de sarampo. Sem nenhum recurso ou tratamento, em um mês, morreram seus três irmãos menores. Isso há quarenta anos.

Em São Paulo, quando morei lá, o meu filho Oscar, então com cinco anos, teve febre, dor de garganta e manchas vermelhas pelo corpo. O médico que atendeu a domicílio, disse que ele estava com escarlatina. Eu nunca ouvira falar em tal doença. Em seguida, explicou que era uma doença altamente contagiosa, podia ser mortal, que deveria comunicar aos órgãos sanitários e requerer o isolamento do doente em um hospital. Desespero, choradeira de mãe e o médico se comoveu. Não comunicaria se eu me comprometesse em seguir à risca suas instruções: não poderia ter contato com ninguém, os vizinhos não poderiam saber para não denunciar e ele pensava, como médico, que o período de maior contágio já havia passado e eu tinha estrutura para cuidar dele;


Meu filho Oscar na época que teve escarlatina em São Paulo.

Na década de quarenta já estava controlada a varíola, mas eu e meus irmãos fomos vacinados. Acho que foi na época de uma grande enchente no Rio Grande do Sul. Não era injeção. Faziam dois risquinhos no braço com um prurido inoculado com o vírus da doença que depois inflamava e virava uma ferida e, posteriormente, uma cicatriz de forma arredondada. Eu vi muitas dessas cicatrizes (felizmente, não foi nosso caso) e rostos desfigurados por crateras que diziam terem sido deixadas pela “bexiga”


Criança com varíola.

Lembrei, vagamente, de ter estudado na escola a “Revolta da Vacina”. A curiosidade me fez pesquisar na internet o histórico da vacinação e agora sei que foi uma ordem do governador de obrigar o povo a se vacinar. O povo não queria porque não sabia o que era vacina. Havia desinformação e boataria como há ainda hoje, quando surgem certas vacinas. Foi assim, quando começou a vacinação contra a pólio e, mais recentemente, com a da Gripe A. A ignorância foi, naquela ocasião, o estopim e continua ainda hoje. Já naquele tempo, atacaram casas quebraram e queimaram ônibus. Neste ano, lá na África, até mataram os sanitaristas e libertaram doentes do ebola porque não acreditam no que dizem os médicos.


Sanitarista Oswaldo Cruz, Famoso por tentar cumprir a ordem do Governador do Rio de Janeiro.

Pesquisando, fui coletando nomes de cientistas, médicos, enfermeiros voluntários, pessoas anônimas dessa luta pela vida, e para livrar as pessoas de sequelas ou mutilações. Enchi um container com o nome de tantos heróis. Constatei que a luta incansável continua mais do que nunca. Ainda resistem aos nossos heróis a AIDS, o câncer, o ebola e outros fantasmas que torturam a humanidade. Tenho certeza de que em breve, muito em breve, todas as pestes jogarão a toalha no tablado da vida. Enquanto isso, as mães agradecem a esses seres maravilhosos que lutam para salvar as vidas e a saúde de nossos filhos.


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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