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Marido de Aluguel

Mafalda Orlandini

02.02.2015

Marido de Aluguel

Muitas pessoas devem lembrar-se do Pereirão da novela da Globo “Fina Estampa.” Foi uma novela da Rede Globo no horário das 21 horas entre 22 de agosto de 2011 e 23 de março de 2012, que contava a luta de uma viúva pobre, Griselda (Lilia Cabral), que, para se sustentar e aos seus filhos, arranjou uma malinha de ferramentas e passou a ir de casa em casa fazer consertos elétricos, hidráulicos e todos esses estragos diários de um lar. O trabalho deu tão certo que ela ficou famosa como “marido de aluguel”, o Pereirão.


Lília Cabral interpretando Griselda, o Pereirão.


Marcelo Serrado, que se destacou no papel de Crô.

Se antes da novela, eu dissesse que tinha um marido de aluguel, seria um escândalo, mas hoje, faço essa brincadeira, com o marido da minha acompanhante, a Jane. A história começou assim. Ela mora em General Câmara e a primeira vez que o marido a trouxe para o trabalho, ficou assustado com os assaltos que presenciou na Rodoviária. Como ela insistiu em permanecer cuidando de mim até eu melhorar, muito zeloso, combinou que viria trazê-la nas sextas-feiras e buscá-la nas segundas. Quando melhorei, cheguei à janela e vi que ele a trazia e ia embora. Achei um absurdo, ele trazê-la de tão longe, não ser convidado a subir e nem ganhar um copo d’água ou cafezinho. “Exigi” que, da próxima vez, o convidasse para subir. Passou a ter direito a um copo d’água e a uma chegada ao banheiro.

Com o tempo, já batia um papinho comigo. Quando dispensei a cadeira de rodas, falei que precisava pintar o apartamento, consertar os estragos das meninas que não tinham CNH para dirigir aquele veículo. Ele falou que, entre os trabalhos que fazia, também costumava pintar. Pedi um orçamento e, ao vê-lo medir as paredes, fiquei pensando que ele era diferente dos outros pintores, detalhista, queria fazer um orçamento sério, sem futuros “aditivos.” (rsrsrs)... Como era só para recuperar os danos, pintar as paredes do corredor e da entrada do dormitório, fez um orçamento condizente. Ademais, não exagerou no valor da mão de obra e se encarregaria de fazer as compras do material, traria as notas e me cobraria depois. Eu não precisaria me preocupar com nada. Pensei na bagunça de ter um pintor dentro de um apartamento pequeno como o meu. Não imaginava como ele seria cuidadoso, competente, que pintasse sem sujar a casa e ainda passasse o pano para lavar o piso, deixando-o perfeitamente limpo.

Não demorou muito e ele me disse que consertaria as portas de correr que viviam trancando e saindo dos trilhos. Saiu a procurar o material necessário e deixou minhas três portas deslizando perfeitas. Noutra ocasião, viu que entrava água da chuva nas sacadas. Comprou silicone e vedou todos os vazamentos. Há alguns invernos, mandei colocar dois “splits”. A empresa que fez o serviço avisou que danos no gesso não eram incluídos no preço. Como, naquelas partes não havia alçapão, deixaram dois enormes buracos. O Borba, esse é seu nome, perguntou-me se eu não queria que fizesse dois alçapões para evitar isso no futuro. Dito e feito. Preço acertado, trabalho feito. E fez mais. Quando um marceneiro colocou uma divisória entre o living e a cozinha, viu que havia ficado um vão porque a parede era torta e a prateleira não. Lembrou-se do restinho de gesso e fez um trabalho caprichado, de um verdadeiro artista, escondendo a imperfeição.


Imagem da divisória

Meu computador perdia o contato com a rede. Era um inferno. Telefonava para a Net e às vezes pedia visita, mas eles não diziam que deveria mudar os adaptadores. Meu neto havia comprado uma régua nova, mas não pode resolver o problema. O Borba olhou, saiu a comprar adaptadores e agora o computador está-se comportando muito bem. O ventilador de teto do meu dormitório começou a fazer um barulho e eu não pude ligar mais. Ele olhou, disse que estava em curto e que eu não poderia usar sem consertar. Fiquei duas semanas sem ligá-lo, porque foi procurar a peça por toda a cidade. Como é um ventilador com quinze anos, só achou o que precisava lá no bairro Navegantes. Substituiu a peça, adaptou uma mangueirinha para facilitar a ligação desde a própria cama e está melhor e mais silencioso de quando era novo.


Eu no computador de minha casa.

E tem mais ainda. Se ele vai ao banheiro, regula a válvula da descarga para sair a quantidade de água e não haver desperdício. Se vê uma lâmpada queimada, troca para mim. Se vai a Osório visitar a filha, compra mel puro. Se o limoeiro da casa dá limões, traz. E faz ainda mais consertos e diz: Bota no caderno que depois a gente acerta. Afinal, há quatro anos, tenho ou não tenho um marido de aluguel?


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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