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Refrescando a memória da Ledinha.

Mafalda Orlandini

23.02.2015

Refrescando a memória da Ledinha.

Estou encantada com minha caixa dourada que guarda muitas lembranças e ficou esquecida por muitos anos no fundo do roupeiro. Só lembrei dela novamente, quando procurei um cartão do Kid Marin. Nela encontrei muitas coisas valiosas e uma pérola muito especial: uma carta de minha irmã de 1959. Para demonstrar o quanto ela é preciosa, é necessário voltar no tempo por mais de cinquenta anos. A década de cinquenta foi muito movimentada para nossa família. A nossa adolescência, minha e dos meus irmãos, festas, formaturas, viagens, casamentos e nascimentos.

Para falar só da Lêda (assim é no registro dela), vou dizer que ela casou em 1956. Em janeiro de 1957, nasceu a Alzira e, em abril de 1958, Liane, a segunda filha do casal. Havia sido preparada para ela e o marido, uma casa no Haras. Shifino, recém-formado em Veterinária, ficou responsável pela criação de cavalos puro-sangue. Não foi tão fácil assim. Com duas crianças com menos de dois anos e necessidade de um dentista, precisou ir para a casa dos nossos pais na cidade. Tratamento de canal, naquele tempo, era complicado e demorado. Conta que estavam sem carro temporariamente e era difícil deslocar-se para lá e para cá com duas crianças. Eu me lembro de um Jeep que meu cunhado teve por um tempo e uma das “gasguitas” abriu a porta e ficou dependurada com o Jeep em movimento.


Casarão em que ficava na cidade na Av. 24 de Outubro esquina com Hilário Ribeiro.

Inicialmente, explica por que veio para a casa da mamãe e a canseira que as meninas dão em todos. A empregada que cuidava um pouco delas foi embora. A Alzirinha estava muito agarrada com ela e incomodava muito, chorava, quando ela saía para o dentista. A mãe ficava triste, e nervosa, pois não dava conta de cuidar das duas ainda mais que a Liane estava cada vez mais arteira.


Alzirinha sentada no sofá estilo clássico da sala de recepção do casarão.

No parágrafo seguinte ela faz um retrato do que a Liane aprontava. Vale a pena transcrever: “A Liane tem feito horrores. Hoje ainda trancou a cabeça na grade da cama e quase não conseguíamos tirar. Cada um corria para um lado e não sabíamos o que fazer, e a Liane gritava cada vez mais. A mãe já estava chamando o sr. Pedro para trazer um serrote e assim cortarmos a grade, quando consegui dar um jeitinho e tirá-la. Sobe em tudo e não tem parada. Ontem de noite, quando vimos, estava em cima da escrivaninha do pai, atirando as cartas para o ar. A adoração dela é a água. Diversas vezes já abriu o chuveiro do bidê higiênico e, quando vimos, parecia um pintinho molhado, rindo que dava gosto. Lá fora, é só a porta estar aberta e já está dentro da banheira com o sabonete e a torneira aberta. Ando louca para tirar uma temporada na granja. Lá eu tenho que cozinhar (obs: nunca gostou), mas ao menos eu posso soltar um pouco essas cabritas no jardim.


A minha afiliada Liane sentada no mesmo sofá no casarão da 24 de Outubro..

Quando recebi essa carta em outubro de 1959, em São Paulo, estava louca de saudades e querendo voltar para o meu Rio Grande do Sul. Eu era acostumada a viver com a família e lá era diferente. Embora morasse em um bairro em que a maioria dos moradores não era paulistana, e gostava de fazer amigos na vizinhança e de encontros nos fins de semana, não era a mesma coisa. Nos dias da semana, meu marido saía cedo pela manhã e voltava à noite, quando as crianças já estavam dormindo. Eu me lembro bem da propaganda dos cobertores Parayba: “Já é hora de dormir...” Ele chegava depois das nove horas.

Quanto ao parágrafo copiado, eu o justifico porque seria impossível retratar com tanta precisão o comportamento da Liane, minha afilhada, que até hoje é um furacão. Eu poderia plagiar minha irmã, mas os leitores desse comentário ficariam privados da melhor parte dessa carta de três folhas em papel de seda, escritas a mão e que está guardada há 56 anos. Só uma mãezinha aflita é capaz de fazer uma descrição tão perfeita de uma criança de um ano e pouco tão elétrica.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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