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Os Médicos da Família

Mafalda Orlandini

09.03.2015

Os Médicos da Família

Li e reli muitas vezes as cartas da Leda e da Giselda. Uma de 1958 e outra de 1959. Há muitas coisas em comum porque tratavam de assuntos comuns à família. Algo que me chamou a atenção é, quando falam sobre a saúde da família, citam os mesmos médicos para tudo. A Giselda conta que estão saindo umas manchas na pele do Benito, e o Doutor Luiz Fayet receitou uns remédios e dieta rigorosa. Não melhorou e agora ele vai consultar o doutor Ervino Diefenthaeler. O Schifino anda meio ruim, diz a Leda. Tem muitas dores nos pés e nas juntas. O doutor Ervino diagnosticou ser reumatismo e receitou injeções de vitamina B1. Doenças tão diferentes e os mesmos médicos? A Ana Virgínia estava com sarampo. Será que chamaram o Fayet ou o Ervino?

De repente, eu lembrei. Era assim mesmo. Esses dois médicos eram sempre consultados, a família sempre buscava o socorro deles. O papai era fã incondicional do doutor Fayet. O que ele dizia era lei. A maior especialidade dele era os pulmões e, quando o médico disse que meu pai estava com os pulmões afetados pelo cigarro, parou de fumar no mesmo dia. Distribuiu os cigarros da carteira para os amigos, e fumou, junto com eles, o último cigarro. O Fayet também foi responsável pela viagem às Águas de Lindoia para tratar dos cálculos nos rins do papai. Quando o tio Eliseu precisou de médico, papai trouxe-o de Roca Sales para uma consulta.  Papai chorou muito, porque o diagnóstico foi para procurar um médico “daquela doença” e viu que o doutor em que ele confiava já não poderia fazer nada.

Quanto ao doutor Ervino, é uma história ainda mais comprida. Ele foi nosso clínico geral, “pediatra” dos quatro irmãos, cirurgião, obstetra e ginecologista. Bastava termos uma dor de barriga, febre, tosse, qualquer indisposição para chamá-lo à nossa casa. Quando a gente ouvia o vozeirão dele brincando com a mamãe e subindo até nosso “leito de dor” no segundo andar, já nos sentíamos, com certeza, curados. Eu adorava o doutor Ervino e acho que, às vezes, exagerava um pouquinho nas queixas só para ver o doutor. Ele nos acompanhou até a adolescência nas horas do sarampo, da coqueluche, da caxumba, das vacinas periódicas.


Os quatro filhos do casal, José Guido e Alzira, que tiveram o acompanhamento do doutor Ervino da infância aos vinte anos: Lourenço (desde que nasceu), Mafalda, Leda e Benito.

Quando minha mãe chamou o doutor Ervino para ver por que eu tinha tanta dor no ventre e a febre não baixava, chegou às 23 horas lá em casa. Nunca deixava de atender, quando minha mãe pedia socorro. Era um caso agudo de apendicite e precisava de uma cirurgia com urgência. Como meu pai não pode ser localizado (era apaixonado por poker e fora jogar com uns amigos do Clube do Comércio), o próprio médico, com a anuência de minha mãe, providenciou o hospital e fez a cirurgia de emergência.


Eu, aos quinze anos, na época em que fiz a cirurgia. O cachorro é da amiga Lilian Wild.

Quando eu fiquei grávida (as duas vezes), fez o acompanhamento pré-natal. Não me deixou tomar remédios para os enjoos. (“Isso passa logo, grávida não precisa de remédio.”) Até hoje agradeço, pois foi no tempo da terrível Talidomida que deixou trágicas consequências que perduram até hoje. Se ainda há dúvidas, não preciso acrescentar que foi ele que acompanhou o parto de meus dois filhos junto com as irmãs do Hospital Alemão, hoje o excelente Hospital Moinhos de Vento. E as duas primeiras gravidezes das primeiras filhas de minha irmã também tiveram o mesmo acompanhamento competente e carinhoso.


Os  netos do casal que vieram ao mundo em 1957, 58, 59, 60 com a ajuda do  notável médico gaúcho Ervino Diefhenthaler. O Oscar nasceu antes, em 1953, também pelas mãos do doutor  Ervino.

Quando vejo o caos da saúde, quando vejo na televisão os corredores dos hospitais com as pessoas jogadas, gemendo de dor, queixas e mais queixas contra o Sistema de Saúde ou contra o atendimento em Hospitais, lembro como nunca enfrentei esses problemas na vida. Devo agradecer a Deus e aos costumes da época. E o máximo que me acontece hoje é haver algum atraso em uma consulta marcada com antecedência ou ter que esperar um mês ou dois para ser atendida por um especialista. Benditos e amados médicos da família... Isso não poderia ter mudado.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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