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Mafalda Orlandini

06.04.2015

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Esses últimos dias foram muito tensos. Denúncias, passeatas de protestos ou de apoio a qualquer coisa, Operação Lava-jato, ameaça de atraso nos salários, situação precária das escolas, só para citar alguns problemas. Para culminar, o trágico acidente nos Alpes franceses. Eu não tenho tendência à depressão, mas fiquei triste, assustada, insegura, desabei. Não conseguia pensar em um texto que não fosse desagradável. E desisti de escrever

Passei o tempo lendo as crônicas, os artigos, os comentários nos jornais. Perdoei Marcos Piangers, quando li “Porto alegre é demais”. Não conseguia engolir aquelas coisas que falou de nossas praias. Por outro lado, David Coimbra divertiu-me com “A receita da felicidade.” Nada mais do que um estrogonofe, feito exatamente como no tempo dos czares, quando a duquesa Strogonov criou essa iguaria. Claro que enriqueceu sua receita com lances geniais, ensinou uma receita perfeita, não deixou passar o mínimo detalhe, inclusive, que o verdadeiro deve ser flambado e o atual está popularizado.

Túlio Milman, com “Feliz aniversário Porto Alegre” conseguiu expor todos os dramas dos porto-alegrenses num texto em que justifica seu não-comparecimento à festa de aniversário da cidade. Fez um texto em que reclamou de tudo que o porto-alegrense sofre sem se tornar óbvio. Então, pensei em todos os assaltos que sofri em minha vida e ver se conseguia rir deles. Não fazem parte das estatísticas, porque nunca registrei ocorrência. Assim como eu, muitas vítimas não se dão ao trabalho de ir a uma delegacia, se não há lesão corporal ou por que não acreditam que o meliante seja punido. As estatísticas não refletem o verdadeiro caos da violência e os assaltantes continuam impunes e rindo da nossa cara.

O primeiro assalto à minha casa foi em 1946, já no século passado. Foi durante uma serenata. Havíamos contratado uns pedreiros para fazer uns reparos. Serviço terminado, pagamento feito. À noite recebi uma estranha serenata. Disseram que era da turma do Osmar para a Mafalda. Usaram o nome dele, que frequentava a nossa casa. Era um jovem, metido a cantor que sonhava cantar no conjunto de Norberto Baldauf. Enquanto riamos do cantor e dos músicos desafinados, eles estavam roubando os engradados de cerveja e de guaranás que tínhamos na despensa anexa à garagem. O pobre do Osmar não tinha nada a ver com a romântica serenata.

Um outro assalto muito estranho ocorreu quando eu já era viúva. Eu havia contratado uma mocinha do interior, de dezesseis anos, para me fazer companhia e continuar seus estudos na capital. Eu morava num segundo andar de um prédio defronte ao Gigantinho. Uma noite, pela madrugada, a garota invadiu meu quarto, no outro lado do apartamento, chorando, suando, vermelha que nem um pimentão:

- Tia, tem um homem no meu quarto!!!

Pensei que era pesadelo da garota, mas não era. Um tarado subiu até a área de serviço, apoiando-se em saliências, fechou a porta que dava acesso ao resto do apartamento e começou a ameaçá-la. Chegou a subjugá-la, disse que a vinha observando e ela devia ser virgem porque tinha jeito de moça do interior. Ela sempre me disse que um anjo a iluminou e ela disse que não era. Foi instantâneo. Largou-a, entrou na cozinha, comeu uma banana, pegou a máquina de fotografia dela e foi embora rindo. Só foi difícil convencer os pais dela para não levá-la de volta. Quando conseguimos absorver o ocorrido e nos acalmarmos, só nos restou rir e agradecer a sorte de ter-se inspirado na resposta ao meliante.

Tenho histórias, nem sempre hilárias de umas vinte invasões de assaltantes a minha casa. Só no Imbé foram quatorze. Sempre no inverno, faziam uma limpa em minha casa. Entravam pelas janelas, pelos fundos, pela frente, pelo telhado, quebravam portas e grades. Quando começava o veraneio, eu tinha que consertar ou repor o que fora roubado. No entanto a alegria do veraneio sempre compensava.

Tenho também a história de um assalto à mão armada. Esse foi defronte ao apartamento em que moro aqui na Tristeza. Ia saindo para ir ao aniversário de um neto. De repente, um moleque veio pelas minhas costas e começou a puxar minha bolsa. Eu só resolvi soltá-la, quando ele colocou a pistola no meio da minha testa. Virei para trás e vi meu acompanhante numa situação ridícula, praticamente dançando, pois o meliante ameaçava atirar nas pernas dele, se ele não desse a carteira. Então eu vi um moto-boi na esquina. Gritei por socorro e ele rapidamente veio em minha direção, o guri saltou na moto e sumiram. Até hoje devem estar rindo de eu pedir socorro ao assaltante. Dessa vez foi feita uma ocorrência porque levaram nossos documentos, cartões e celular.

Na realidade, nós somos vítimas passivas, não entramos nem nas estatísticas e servimos de chacota para os profissionais do crime. Essas violências já se tornaram banais para nós e iríamos passar o tempo todo nas delegacias. Com tantas ocorrências mais graves, não há tempo para ir atrás dos ladrões de galinha. Deixemos a parafernália de lado e vamos cantar junto com Kleiton, Kledir, Isabela Fogaça e todos os gaúchos aquelas belas canções “Deu pra ti” e “Porto Alegre é Demais.” As coisas ruins vão passar e Porto Alegre continuará sendo a “Cidade Sorriso”.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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