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Minha amiga Lilian

Mafalda Orlandini

31.08.2015

Minha amiga Lilian

Na década de quarenta, um casal húngaro comprou a casa, revestida de mica, de número 801 da Rua Visconde do Rio Branco, no bairro Floresta: um médico, sua esposa e uma filha. Não pode clinicar porque exigiam que se reciclasse conforme a lei vigente. Como também era bioquímico, montou um laboratório, patenteou um analgésico, as Pastilhas Wild, seu nome próprio. Foi um comprimido muito conhecido e usado naquele tempo.

Essa casa de que falo ficava ao lado da residência da numerosa família Rossi. O casal tinha seis filhos que logo se enturmaram com a única filha do casal húngaro, Lilian. Tornou-se grande amiga de Lígia Rossi até o falecimento desta, faz poucos anos. No entanto a minha amizade com Lilian continua, enriquecida e documentada por muitos lances felizes nestes últimos 75 anos.

Em 1943, Lilian e eu fomos matriculadas na primeira série ginasial do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho e ela passou a fazer parte da nossa turminha da Visconde. Íamos ao colégio nos famosos bondes amarelinhos da CARRIS, pela Cristóvão Colombo. Lembro bem do tíquete amarelinho que nossos pais nos davam para o transporte. Ela vinha da casa dela, mais acima, e ficava me esperando. Como, às vezes, eu me atrasava, subíamos a lomba da Ramiro Barcelos correndo, e encontrávamos os portões já fechados. Um dia, ela me advertiu que a mãe dela não queria mais que ela me esperasse. Então, nas vezes em que me atrasei, passei sozinha pela reprimenda da madre que ameaçava chamar meus pais para conversar sobre os meus atrasos. Nunca chamou porque sempre fui aluna exemplar cuja única falta era essa. Eu mesma não entendo esses atrasos porque, durante a vida, nunca cheguei atrasada em qualquer compromisso.


Lilian, eu e Dolores na Rua da Praia passeando com o uniforme do Ginásio do Bom Conselho (1945).

Além do estudo, gostávamos de tirar muitas fotos. Fazíamos pose de modelo e tirávamos dezenas de fotos com a minha primeira e única máquina fotográfica, marca Agfa. Também saíamos seguidamente para desfilar na Rua da Praia, fazer compras e degustar uma “banana Split” nas Lojas Americanas.



Eu e Lilian desfilando e fazendo compras na Rua da Praia (1947).

Em dezembro de 1946, terminamos o ginásio, mas foi em 7 de janeiro de 1947 que comemorei a formatura e o aniversário de 17 anos com uma festa com convidados em traje de gala e conjunto musical. É claro, com a presença de todas as minhas amigas e seus namorados, inclusive o meu. Nossa! Como a gente inventava coisas.


Eu, Lilian e mais duas amigas no dia de meu 17º aniversário (1947)

Os anos foram passando e os encontros ficaram mais esporádicos. Mas nunca perdemos o contato ainda que fosse por telefone. Ambas casamos, tivemos filhos e escolhemos como profissão o Magistério. Ela professora de Inglês, e eu de Português. Parece que foi em um incrível piscar de olhos e, de repente, chegávamos a 1996. As irmãzinhas do Bom Conselho costumavam realizar um evento (não sei se ainda o fazem) para comemorar os cinquenta anos de formatura de cada turma do ginásio. Em nosso caso, foi a de 1946.


Eis-nos no Clube Cacheiros Viajantes em 1996 com outras colegas formandas de 1946 do Colégio Bom Conselho

Em 2010, adoeci gravemente e fiquei muito debilitada, fraca e presa à cadeira de rodas. Desde então, embora nos falássemos periodicamente, não conseguíamos reiniciar os almoços que ela fazia questão de oferecer em sua casa. O prédio em que ela mora com o marido tem, na entrada, uma escadaria de mármore branco que sempre impediu meu acesso. Enfim, combinamos que no dia 18 de agosto, eu entraria pela garagem, levando meu andador. Perfeito. Deu certo, apenas um degrau e o elevador.


Clarissa, eu, Lilian e seu marido (2015).

Desfrutamos, com Clarissa, filha do casal, um almoço “caseiro”, como Lilian faz questão de dizer. Com 85 anos, goza de uma habilidade rara em fazer pratos deliciosos. Houve até sobremesa muito especial (laranjinhas japonesas) que ela mesma preparou, um copo de vinho e cafezinho quentinho. Mas o mais incrível que se destaca nesses encontros é a memória dos três. Relembramos (nós e Rony, o marido) os inúmeros momentos em que convivemos em nossa longa vida de “amigas de infância”. Devemos agradecer a Deus pelo privilégio de podermos lembrar com detalhes, fatos que ocorreram em nossa abençoada longa vida. Reencontro inesquecível !!!


Tags: Mafalda Orlandini, crônicas, coluna


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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