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Anna Mezzomo, minha avó italiana II.

Mafalda Orlandini

25.04.2016

Anna Mezzomo, minha avó italiana II.

Durante minha adolescência, meu pai reservava quinze a vinte dias do verão para passar com a família em uma praia do Rio Grande do Sul. Era uma festa para nós termos pai e mãe só para nós. A preferência, em muitos anos, foi Capão da Canoa. Na primeira vez, foi uma aventura. Muitos descendentes de italianos escolhiam essa praia. Combinamos com uns amigos para irmos em caravana. Lembro-me da família Costi, nossos vizinhos, que nos acompanharam. A estrada era precária e tínhamos que passar pelas famosas esteiras para chegar à beira do mar. A viagem levava muitas horas, não sei quantas. Só lembro muito bem que nossa mãe fazia a famosa galinha com farofa e preparava sanduíches para a criançada faminta e impaciente.


Capão da Canoa em 1947.

Passada a temporada da praia, eu estava liberada para passar uns vinte dias em Roca Sales, minha terra natal da qual eu saíra aos sete anos. Eu me hospedava na casa da vovó e era liberada para visitar meus parentes, as famílias Orlandini e Voges. Uma tarde em cada tia, que me brindavam com quitutes deliciosos, cafés, pães, geleias e linguiças caseiras

Ao entardecer, voltava para casa e ficava conversando com a vovó até a hora de dormir. Nós costumávamos ficar na sala, na esquina que dava para o Rio Taquari. Gostava de olhar o entardecer do rio enquanto me balançava na cadeira que ela me mandou entregar após sua morte. Hoje, minha “herança” está no living do apartamento do meu filho mais velho em um canto da sala.

Um belo dia, vovó trouxe uma caixa com fotos. Não muitas, porque, naquele tempo, não era tão fácil fotografar como hoje. Mostrou-as e foi nomeando cada pessoa. Depois me disse que eu poderia escolher as que quisesse. Não me dei conta de que me oferecia um acervo valioso de nossa árvore genealógica e só escolhi algumas.


Família de Pietro Orlandini e Virgínia Gabrielli. Casaram-se em 16/07/1862 em Verona, Itália, na Paróquia de Roncolevá. Tinham aproximadamente vinte anos. Em que ano vieram para o Brasil? Não sei.

Esta foto, hoje eu sei, é uma preciosidade: no centro, sentadinhos com as mãos nos joelhos, meu bisavô e minha bisavó. Todos os outros são membros da família Orlandini, filhos, filhas, genros, noras, e netos que não sei identificar. O nono Pietro, não cheguei a conhecer, mas me lembro da nona. (Ela nasceu em 1843 e eu em 1930). Essa foto é muito fiel ao que tenho na minha lembrança. Possuía um longo cabelo branco que enrolava em um coque. Eu a vi algumas vezes sentada ao sol, penteando-o e escovando-o. Perguntei a vovó por que o fazia. Ela me explicou que não se costumava lavar muito a cabeça e aquele era costume daquela época.


Da direita para a esquerda: vovó Anna, tia Stela e Coraldina. A outra, não sei quem seria.

A vovó nunca teve cabelos brancos. Dizia que era porque usava uma tal de Loção Juvênia, muito conhecida por mulheres vaidosas de “antanho”. A Coraldina foi a eterna empregada doméstica da família. Ajudou a criar os cinco filhos. Depois que todos casaram, foi ficando. Era ela que sovava as deliciosas massas e as passava em uma máquina que ficava junto à cozinha. Quando a via girando com muito esforço aquela parafernália pesada e esquisita, sabia que o macarrão viria no almoço.


Três rainhas do Clube Rocassalense. A da direita é a tia Stela (irmã do meu pai), a do meio, é tia Celina, irmã da minha mãe e a da esquerda., não tenho certeza, mas acho que é a tia Delmina (sei que é apelido, mas não consigo lembrar o nome de batismo já que não costumávamos usá-lo)

Para encerrar a sessão de fotos (sei que meus amigos gostam de fotos antigas), mais uma, desta vez do vovô com dois amigos. A vovó me disse que um era o Conte, seu cunhado. Jamais vou me perdoar de que eu não soube aproveitar o momento, pegar uma caneta e fazer anotações no verso dos postais. Santa ignorância da minha adolescência.

Quando eu tinha quatro anos de idade, minha avó me colocou duas agulhas na mão. Com muita paciência e carinho, ensinou-me a tricotar. Habilidade que desenvolvi com muito gosto durante toda a vida. Sempre que tricotava, aprendia um novo ponto, fazia suéteres e mantas, lembrava a minha “primeira professora”, aquela que me ensinou o que poderia ser até um rendoso ofício. Protetora e sábia mulher. Valeu para toda a vida, verdadeira prova de amor.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica, colunas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

  • Roberto Henry Ebelt (29.04.2016 | 11.16)
    Mafalda, mais uma preciosa viagem no tempo. Interessante o costume de não lavar os cabelos tão frequentemente quanto hoje. E a Loção Juvênia? Lembro-me que minha mãe usava Loção Brilhante, a versão antiga do Grecin 2000. Sempre achei que exageramos na lavagem dos cabelos e, ao assim fazer, removemos os óleos e proteções naturais tendo que substitui-los para produtos químicos de alto custo. Como vês, estou ficando um saudosista inveterado. Abraços.
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