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A casa da vizinha

Mafalda Orlandini

16.05.2016

A casa da vizinha

Quando vim morar neste apartamento, o meu sonho era juntar a sacada ao living. Passaram-se alguns anos, mas, quando recebi uma RPV (do tempo do Brito) com 40% de deságio, tomei coragem e usei meus chorados reais no que mais desejava. Foi muito sofrido realizar a reforma em pleno inverno, pois fiquei vários dias sem vidros nas janelas. Mas eu não aguentava mais esperar. Valeu a tortura. Enfim, coloquei minha mesa de refeições de frente para o Guaíba. Desde então, faço meu desjejum e todas as refeições, namorando o Guaíba, a paisagem e bisbilhotando a vizinhança. Não tenho pressa nesse meu passeio pelo meu pedacinho de bairro porque sou uma professora idosa, e tenho todo tempo do mundo para curtir minha “rica e merecida aposentadoria”.


Foto do jardim, Detalhe: junto ao muro a pilha de lenha

Faz alguns dias, vi meus vizinhos, Cida e Luiz, descarregando toras de lenha de uma camionete. Pensei. Eles já estão-se preparando para o inverno. Dei uma olhada panorâmica em toda a extensão da moradia, analisei como ela era há dezesseis anos e cheguei à conclusão de que ela merecia essa crônica. Sofreu tantos acréscimos que revelam as características de seus donos. Sem entrar na intimidade deles, posso definir seus gostos e modo de vida.


Foto do telhado da casa.

No ano de 2000, era apenas uma casa, com um pequeno jardim e um vasto pátio no qual era costume colocar extensos varais de ponta a ponta (Ainda permanecem lá). Havia sempre muitos tapetes e peças de roupa secando ao sol. Tanto é que comentei com alguém: acho que a vizinha tem mania de limpeza, pois lava tapetes, acolchoados e roupas durante toda a semana. Ledo engano, como diriam os antigos. Ela era dona de uma empresa de limpeza de lojas e escritórios.


Foto do pátio com os varais

Não sei precisar datas, mas comecei a conhecer melhor a Cida, quando fiz minha reforma. O rapaz que trabalhava aqui fazia serviços para ela. Contou para a Cida sobre as dificuldades de espaço para trabalhar em um apartamento cheio de móveis. Impressionante a atitude da vizinha que eu mal conhecia. Ela se ofereceu para guardar meus estofados para não ficarem sujos e minhas roupas lavadas para estender no seu quintal. Soube então que a nova construção no fim do terreno era para abrigar um fogão a lenha, churrasqueira e lareira, talvez. Isso porque o Arilsom me perguntou se não queria doar os lambris que retirara do forro da sacada para a vizinha queimar no seu fogão. Não sei detalhes do ambiente, embora tenha sido convidada muitas vezes para conhecer o “cafofo” da Cida. Só sei que ela costuma receber seus amigos ali, junto ao parreiral e ao limoeiro. E me disse que é a realização de um sonho antigo.

Um pouco depois, foi a vez da piscina (pena que choveu e não está limpíssima como é hábito), tudo para ter o prazer de ver o neto no verão, brincando e nadando ali. Passei a vê-lo ainda pequenino, brincando feliz e crescendo como abóbora. Quando ele jogava bola, seguidamente, ela saltava para cá e ele apertava no porteiro e pedia para pegar a bola. Ia-me esquecendo dos outros moradores: alegres cãezinhos que latem desesperados, quando veem vizinhos passeando com seus filhotes.


Foto panorâmica da casa dos meus vizinhos.

Não pararam por aí os acréscimos nessa “casa viva”. Colocaram floreiras nos muros e trepadeiras floridas nas grades do jardim. Eu adoro perceber que ali existe um lar onde o casal é visto, às vezes, trabalhando lado a lado no jardim ou no quintal. São pessoas ativas, que amam seus lares e que sempre estão tornando-os mais acolhedores e confortáveis. Além de tudo, a natureza cooperou. As plantas e as trepadeiras cresceram da noite para o dia e ficam floridas, lindas conforme a estação. Espero que um dia eles me perdoem a intromissão e venham-me visitar para ver daqui de cima a casa mais viva e bisbilhotada do bairro.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica, colunas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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