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Mudei o Foco

Mafalda Orlandini

19.09.2016

Mudei o Foco

Cansei. Cansei de ouvir: fora Temer, fora Dilma, é golpe, não é golpe, impeachment já, protestos, discussões, vandalismo. Alguns donos da verdade usam mil argumentos supostamente embasados em leis e na Constituição e não conseguem convencer os que não querem ver. No outro dia, vêm os contrários que afirmam que não é nada daquilo. E medidas concretas para o Brasil sair do ostracismo econômico, nada. Minha pobre cabecinha de idosa que anseia por paz e amor em sua velhice é um emaranhado só. Decidi procurar temas mais prazerosas, mais amenos.

Hoje vou confidenciar sobre uma das maiores frustrações da minha vida e que só descobri tardiamente: a perda das propriedades rurais da minha família. Descendente de imigrantes italianos e alemães, só descobri que minha alma ficou no campo, quando cheguei à maturidade.

Na semana passada, mencionei um projeto realizado em Flores da Cunha que é muito apropriado para segurar os jovens no meio rural e prepará-los para as dificuldades e as vantagens de permanecer em suas propriedades. Ninguém me passou esses valores. Só despertei para o amor da lida com a terra tardiamente. Lamentável.


Criação de Codornas.

Meu pai, José Guido Orlandini, sempre foi um empreendedor e já obtivera sucesso em sua juventude. Quando percebeu que os investimentos no Haras eram grandes, e o lucro viria a longo prazo (como não veio nunca), procurou alternativas mais imediatas.  Na década de 60, invadiram o mercado iguarias que fizeram logo muito sucesso. Vou lembrar algumas, hoje muito comuns em nossas refeições: a tilápia ou carpa, o cogumelo e ovos de codorna e a própria codorna. Pois meu pai investiu em todas as frentes.


José Guido Orlandini, meu pai, agosto/1970.

Papai comprou tilápias, preparou os viveiros, não sei qual o tipo, só sei que se comunicavam com o Guaíba. Algum tempo depois, veio a EMBRAPA fiscalizar o empreendimento. Exigiu o sacrifício dos peixes e a destruição dos viveiros. Eu soube, naquela ocasião, que era porque os dejetos, que iam para o Guaíba, estavam prejudicando a fauna local. Como sei que a criação atual é um sucesso, um empreendimento sustentável, fui pesquisar na internet. Agora sei tudo sobre a tilápia. Se tivesse idade e local, poderia fazer um belo trabalho. Sei, por exemplo, que não foi só meu pai que fracassou. Os empreendimentos de 1953 falharam em geral no país. Em 1971, importaram outras espécies, mas as que deram melhor resultado foram as de 1981, as tilápias vermelhas.


Tilápias vermelhas (Saint Peter)

Nas minhas pesquisas, descobri algo que me deu enorme prazer: Roca Sales, minha terra natal, é referência na piscicultura, criação e exportação de tilápias. Inclusive, periodicamente realiza a EXPOROCA e a FECARPA, sucesso de expositores, público e diversão. Destaque em desenvolvimento sustentável, alavancou a economia da região. Tudo certinho, com os avanços nas formas de criar, novos recursos e a orientação de técnicos e da EMATER, é sucesso garantido.

Havia um aviário com frangas poedeiras na Granja. Quando codornas apareceram à venda no mercado, os amantes da caça de perdizes logo se tornaram consumidores e as vendas fizeram sucesso. Papai deve ter pensado que fazendo algumas adaptações no aviário, poderia aventurar-se na cuturno cultura. Não era bem assim. As codornas necessitavam de outra estrutura, gaiolas menores, machos e fêmeas poderiam ficar acasalados, outro tipo de ração, outra qualificação dos funcionários. O cuidado com os filhotes, extremamente minúsculos, era diferenciado. Deveria haver um controle da temperatura ambiente que requeria até aparelhos de refrigeração. Quando perguntei pelo empreendimento, meu pai disse que não dera certo.


Rainha Natália Volken Lutz (ao centro), 1ª princesa Bruna Kautzmann (à esquerda, ao lado do mascote), 2ª princesa Hélen Cristina Schüssler (à direita) e o mascote “Carpija"
na 6ª ExpoRoca e 9ª Fecarpa de 2014.

Foi na metade do século que imigrantes japoneses e chineses trouxeram para o Brasil outras culturas, inclusive a produção de cogumelos. Papai ofereceu a granja para um grupo de japoneses que viveram um tempo por lá e produziram hortaliças e flores que, com meu cunhado, iam vender na CEASA. Deve ter sido influência deles a tentativa em obter cogumelos. E, novamente, quando eu pensava que ia ter muitos cogumelos em nossa mesa, papai disse que as ratazanas tinham invadido o local e haviam devorado todos.


Cogumelo em tronco.

Atualmente, o EMPREENDEDORISMO está em alta. Eu penso que deve ser muito incentivado. É bom para o Brasil. Foi por isso que me lembrei de outras épocas. Hoje há informações, cursos, orientações imprescindíveis para que qualquer bom empreendedor obtenha sucesso. Mas o empreendedor deve colher todos os subsídios, ele mesmo deve qualificar-se, sempre atualizar-se, saber ensinar e fiscalizar. Não deve esquecer um ditado mais velho que eu: “O olho do dono engorda o boi”.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica, colunas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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