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Sem consenso II

Mafalda Orlandini

24.10.2016

Sem consenso II

Um tema que volta sempre a ser discutido é o ABORTO. Fui educada sempre em escolas católicas. Claro! Para mim, era indiscutível: um crime, um assassinato, um pecado mortal. Existe, para o Catolicismo, um ser vivo desde o momento da concepção. A Igreja só admitia métodos de concepção como o Ogino-Knaus e controle da temperatura basal. Camisinha nem pensar. Aliás, eu conheci muitos filhos do “ogino” que falhou muitas vezes.

No século XX, mudanças, descobertas e invenções mudaram a cabeça da maioria das pessoas. A pílula anticoncepcional invadiu o mercado. A liberdade sexual passou a ser reivindicada por homens e mulheres. Há os que defendem que a pessoa é a dona do seu corpo e deve decidir se quer ter filhos ou não. Há também o problema social das crianças abandonadas, passando fome, doentes, doenças transmissíveis, a AIDS, mulheres morrendo na mão de charlatães que se dizem profissionais do aborto. É um problema universal que faz pensar em soluções urgentes.

O ESTUPRO, por outro lado, é um crime inadmissível e nem caberiam discussões sobre ele, mas, incrível, há povos que o admitem. Quanto ao Brasil, envolve um pacote de outros problemas: o aborto, o atendimento à vítima, a impunidade do autor. Convivi por um tempo com uma mulher que fora estuprada. Vale a pena ouvir a história dela que até hoje me faz refletir nas consequências que marcam para sempre a vida dessas pessoas.

Eu trabalhava como coordenadora do turno da noite no Polivalente, em Cachoeirinha. Veio transferida para o colégio uma mulher negra, bonita, peitos fartos, uns trinta anos, poucos sorrisos. Não era professora e ficou na minha sala em serviços administrativos. Descobrimos que morávamos muito próximas em Porto Alegre. Maravilha! Convidei-a para voltar comigo, às onze horas da noite pela Free Way que, naquela época, já estava ficando perigosa. Ela não gostava de falar no assunto, mas, durante aquelas viagens, acabou-me confidenciado uma dor e um segredo que levaria por toda a vida.

Ela era assistente social e prestava serviços em um presídio (não sei qual) na recuperação de presidiários. Tinha ótimo relacionamento com eles e estava fazendo o que considerava um bom trabalho. Resolveu adiantar um projeto e foi trabalhar em um domingo ou feriado. A guarda ficava reduzida e em pontos apenas estratégicos. Foi rendida por três homens. Enquanto gritava pedindo socorro, os outros detentos gritavam para ela não ser ouvida. Engravidou e não foi autorizada a fazer aborto. Era difícil obter autorização na década de sessenta. Passou um tempo em licença médica e assistência psicológica para superar o trauma. Então estava na hora de assumir uma outra instituição nos próximos dias.

Uma semana depois, me avisou que estava indo embora, mas queria que eu fosse ao primeiro aniversário de seu filhinho. O que vi foi um menino lindo, igual a outras crianças, alheio ao seu drama, que brincava feliz com seus presentes. Depois disso, nunca mais os vi. Faço fantasias de como ele estará hoje com mais de cinquenta anos.

Será que seu segredo ficou guardado a quatro chaves?


Tags: Mafalda Orlandini, crônica, colunas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




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