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Se o Guaíba falasse.

Mafalda Orlandini

21.11.2016

Se o Guaíba falasse.

Às sete horas, eu já estava sentada a minha mesa de refeições para tomar o desjejum. Depois de uma noite de chuvas e trovoadas, amanhecera um dia primaveril, ensolarado. Enquanto fazia minha pequena refeição admirava a paisagem. Já devo ter falado que minha mesa foi estrategicamente planejada para ficar de frente para o Guaíba. Eu fui fazendo minha avaliação: as águas estavam turvas devido ao desague dos afluentes. Mas o rio não estava com o nível muito alto e se podia admirar as construções das cidades (Guaíba e Alegria) brilhando ao sol. Um navio entrava tranquilamente em direção ao cais.

Eu tomava meu café e agradecia a Deus poder desfrutar de tanta beleza e paz. Só reclamava de dois edifícios. Um de doze andares que me roubou a visão da Ilha das Pedras Brancas que eu tanto amava ver (bem no meio da vista panorâmica) e outro de mais de vinte andares, na Wenceslau Escobar que foi construído há mais de trinta anos (antes do atual Plano Diretor), um dos famosos espigões da Zona Sul. De repente, meus devaneios foram interrompidos por uma voz zangada, grossa, de alguém ainda mais velho que eu e que resmungava:

- Acorda, Mafalda. Cai na realidade. Eu não sou só isso que vês. Sou cercado por coisas muito tristes. Sou desrespeitado e maltratado. A minha existência é muito atribulada, não tenho essa paz.

Imaginei que “ele” queria mais conversa. Convidou-me para um passeio. Aceitei viver a fantasia e saí de mãos dadas com “ele” pela orla do Guaíba. Mostrou-me, primeiro, as praias e as margens cheias de lixo. Contou-me que só mutirões de voluntários o salvam do descaso dos visitantes e da imundície constante. Contou que ficou muito envergonhado de passar muitos dias com cheiro e gosto ruins porque os engenheiros e os funcionários da Prefeitura levaram muito tempo para descobrir o mistério da água poluída que não era culpa dele.


Mutirão de limpeza da orla do Guaíba.

Voamos por toda orla e “ele” me expôs toda a história da Plano de Revitalização da Orla. Foi lançado em 2015, mas tem sofrido muitos percalços. Atualmente, está dependendo de mais verba, de mais um empréstimo. O Prefeito andou revisando o que já foi feito: apenas pequeno trecho entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias. A previsão é da construção de jardins, ancoradouros, decks, bares flutuantes e até espaço para vendedores ambulantes. Quando, não sabemos.

Prefeito José Fortunati visita às obras de revitalização da Orla do Guaíba.

Fomos até o Cais Mauá e discutimos sobre o vai e vem desse Projeto e as divergências sobre a manutenção ou a demolição do já famoso muro da Mauá. Esse caso é pior que o outro. Continua em fase de espera. Após as cheias desse ano, está sendo realizada uma análise do projeto arquitetônico e outras pendências, inclusive a situação econômica das empresas dos que venceram as licitações. Aliás, “ele” comentou, as cheias desse ano; que não aconteciam desde a década de sessenta, tiveram um lado bom: ver se há necessidade de algo mais nos dois projetos, nesse e no da Orla.


Ilustração do resultado da revitalização da Orla do Guaíba.

Sobrevoamos as ilhas e lamentamos a situação dos seus moradores que sofrem e vivem atemorizados com qualquer elevação do nível da água. Para isso, não sabemos se há alguma solução em estudo. “Ele” também lamentou o que os ventos e a força das águas fizeram com o querido “Cisne Branco” nos temporais do início desse ano. Ainda bem que foi restaurado. Estava saudoso e ficara muito feliz que ele voltara a fazer turismo e a transportar pessoas pelas suas águas, depois de uma interrupção de mais de quarenta anos.


Imagens do Cais Mauá.

Espero que esses projetos encantados saiam do papel e que os porto-alegrenses e o Guaíba ganhem o cartão postal e o devido valor que merecem. E mais, que o “Cisne Branco”, (que já foi recuperado), os navios e os amantes dos barquinhos à vela (que vejo ancorados ali no Jangadeiros) só encontrem paz e beleza, navegando no nosso Guaíba amado. Ao final de minha fantasia, dei adeus ao meu companheiro e pude observar que as águas já estavam mais azuis, mais límpidas e o nível das águas tendia a baixar.


O Cisne Branco navegando pelo Guaíba.


Tags: Mafalda Orlandini, crônica, colunas


Mafalda Orlandini é professora de português e literatura aposentada. Lecionou nos colégios: Nossa Senhora do Rosário (Porto Alegre), Vera Cruz (Porto Alegre), Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), E.E. Presidente Kennedy (Cachoeirinha), E.E. Santos Dumont (Porto Alegre) e no Curso Pré-Universitário (Porto Alegre) onde ministrava aulas sobre redação.

Durante muitos anos fez parte da banca de correções de redação nos vestibulares da PUC-RS.

E-mail: mafalda.orlandini@hotmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/mafalda.orlandini

 




Opinião do internauta

  • Roberto Henry Ebelt (11.12.2016 | 11.39)
    Mafalda, conheci o Guaíba em 1951, quando era perfeitamente balneável. Trinta anos depois já era um esgoto, o que me fez lembrar do ditado latino HOMO LUPUS HOMINI. Muito triste, sem falar que o projeto de revitalização do porto parece ser para o próximo século. Como nós, gaúchos, somos lentos!
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