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Um morto, várias viúvas

Gilberto Jasper

25.09.2013

Um morto, várias viúvas

            Quando cheguei a Santa Cruz do Sul, em 1983, cursava o último ano de Jornalismo. Não conhecia pessoa alguma na cidade. Fui contratado para trabalhar no jornal Gazeta do Sul pelo saudoso Guido Kuhn. Poucos meses depois fazia pequenos trabalhos na Rádio Gazeta, inicialmente como redator de notícias.

            Aos poucos, porém, me aproximei do microfone. Certo dia, como todos os profissionais estavam ocupados, fui designado para a cobertura de um velório. Isso mesmo! O patrocínio ficou por conta da empresa do “finado”, um grande empreendedor local. E lá me fui com um técnico para instalar a parafernália sonora.

            Eu conhecia pouca gente, mas o “puxador de fios” que me acompanhou era muito popular, o que salvou a cobertura prevista para durar uma hora. Ele se transformou em produtor. Puxava empresários, políticos e famosos em geral , escrevia seus nomes num papel e me entregava.

            Tudo corria bem até aparecer uma loira que trajava um justíssimo vestido preto, salto alto, maquilagem pesada e se pôs a chorar escandalosamente à beira do caixão. Todas as atenções se voltaram para “mulher fatal”. Soube depois tratar-se de um amor clandestino do falecido que rendera, inclusive, um filho.

            Como diriam os narradores de futebol da época... “reinava grande expectativa” diante da reação da viúva “oficial”, mas tudo correu bem. Com 45 minutos de entrevistas e comerciais, surge outra mulher. Vestia calça jeans apertada, blusa preta transparente, sandália e segurava pela mão uma menina de uns 8 anos. Postou-se ao lado do féretro, sacou um lenço rosa e derramou algumas lágrimas sem grande alarde.

            A viúva – no alto de seus 60 e poucos anos – disparou da cozinha, com uma faca em punho, besuntada de schmier. A confusão se instalou. Olhei para o técnico de som e encerramos a transmissão. “Os irmãos da viúva estão chegando e sempre andam armados... são velhos conhecidos dos brigadianos”, avisou meu colega.

            Transmissão encerrada com um último comercial da empresa do morto, recolhemos os fios e saímos a passos largos. Na chegada à rádio fui advertido de que faltaram 15 minutos para completar o tempo contratado. Depois do meu relato, o gerente Ernany Aloísio Iser foi sábio:

            - Tu fez bem! Aprende uma coisa: com mulher braba a gente não brinca. Sai de perto sem olhar pra trás e só para de correr quando estiver bem longe!

            Ernany não era gerente por acaso...


Tags: Gilberto Jasper, jornalismo, Em Outras Palavras


Gilberto Jasper é jornalista. Trabalhou como repórter nos jornais O Alto Taquari (Arroio do Meio), O Informativo do Vale (Lajeado), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) e Zero Hora (Porto Alegre), além das rádios Independente (Lajeado) e Gazeta AM/FM (Santa Cruz do Sul). Como assessor de Imprensa atuou com o ex-secretário da Educação, Bernardo de Souza (Governo Simon), além do Palácio Piratini (Governos Antônio Britto e Germano Rigotto), na Presidência da Assembleia Legislativa do RS (com os deputados Paulo Odone e Frederico Antunes), na Presidência da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (vereador Sebastião Melo) e com o deputado federal Osmar Terra. Foi assessor de Imprensa da Presidência do Tribunal de Justiça do RS. Atualmente é coordenador de Comunicação do gabinete do deputado Tiago Simon na AL-RS.

Saído no interior de uma cidadezinha do Vale do Taquari com pouco mais de 5 mil habitantes aos 17 anos me considero um privilegiado por ter feito tantas coisas, por ter conhecido inúmeros lugares interessantes e, acima de tudo, ter tido o privilégio de conviver milhares de pessoas e ter feito valiosos amigos.

Contato:
e-mail: gilbertojasper@gmail.com
Blogger: gilbertojasper.blogspot.com.br




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