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Um castelo esquecido no meio do Pampa

Gilberto Jasper

05.05.2014

Um castelo esquecido no meio do Pampa

             As agruras da vida de jornalista são plenamente compensadas pelas personagens inesquecíveis que se descobre e pela descoberta de lugares únicos. Certa vez, elaborei uma reportagem para o extinto Caderno D do jornal Zero Hora sobre o Castelo de Pedras Altas, idealizado por Joaquim Francisco de Assis Brasil. A obra se localiza no município de Pedras Altas. Sem dúvida foi a experiência mais marcante que vivi como repórter.
             Ao longo de uma semana conheci a intimidade do castelo graças à gentileza da filha do idealizador, Lydia de Assis Brasil. Com riqueza de detalhes recordou das tardes de domingo quando o pai praticava tiro ao alvo com o militar e estadista Duque de Caxias ou cavalgava com o historiador Capistrano de Abreu pelas pradarias da propriedade.
            A construção do castelo com traços medievais durou de 1909 a 1913. Foi prova de amor de Assis Brasil à segunda esposa, Lídia Pereira Felício de São Mamede. Ele não mediu esforços para concretizar o projeto. Trouxe calceteiros da Galícia (Espanha) especialmente para erigir o castelo onde foi assinada a Paz de Pedras Altas, acordo que pôs fim à Revolução de 1923, repetição do confronto entre chimangos e maragatos.
 
 
 
            Visionário, Assis Brasil transformou a propriedade em espaço altamente produtivo que impulsionou a atrasada pecuária gaúcha. Promoveu a importação de matrizes das raças Jersey (da Inglaterra), além de robustos touros Devon, cavalos árabes e ovelhas Karakuk e Ideal. Até as galinhas eram de raça superior, trazidas dos Estados Unidos. Introduziu novas espécies de árvores, construiu estrebarias, galpões e porteiras que funcionam até hoje. Foi inventor de diversos utensílios, como a bomba de chimarrão de mil furos que jamais entope e leva o seu nome.
            “O arado e o livro são ferramentas do progresso”, repetia Assis Brasil. Na entrada da propriedade é possível ler, lapidada no piso, a frase: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma / O arado que educa a terra / O livro que amanha a alma”.
A biblioteca, composta de 15 mil exemplares, foi construída a partir de um profundo estudo sobre a orientação solar para evitar a proliferação de mofo. O lugar abriga obras em inglês, francês, português e latim. O castelo mantém até hoje móveis trazidos de Nova Iorque. Foram instaladas 12 lareiras, espalhadas pelo prédio para enfrentar o rigoroso inverno do pampa gaúcho.
                                              
                                              
             A quantidade de objetos históricos impressiona. Um deles é uma prosaica janela que ainda preserva os vidros quebrados durante a invasão dos chimangos. “Toda a casa deve ter suas cicatrizes”, explicou Assis Brasil para justificar a manutenção dos cacos de vidro que perduram na janela.
Apesar do inestimável valor histórico, o Castelo de Pedras Altas permanece fechado para visitações.
            Em busca de informações para acessar o local há poucos dias conversei com a filha, Lydia. Por telefone e com voz embargada, resumiu a situação:
            - Infelizmente o senhor não poderá trazer a família para a visitação... O castelo passa por um momento de transição - afirmou.
            Explicou que o imóvel está à venda. Foi oferecido ao município de Pedras Altas, ao Estado e à União. Os descendentes de Assis Brasil – Lydia parece ter sido voto vencido – desistiram.
Certamente o custo de conservação é muito elevado, impossível de ser coberto com a simples cobrança de ingressos. Resta torcer para que uma alma bondosa, ciente da importância histórica e cultural da construção, mantenha este monumento de inestimável valor para o Brasil.

Tags: Gilberto Jasper, jornalismo, Em Outras Palavras


Gilberto Jasper é jornalista. Trabalhou como repórter nos jornais O Alto Taquari (Arroio do Meio), O Informativo do Vale (Lajeado), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) e Zero Hora (Porto Alegre), além das rádios Independente (Lajeado) e Gazeta AM/FM (Santa Cruz do Sul). Como assessor de Imprensa atuou com o ex-secretário da Educação, Bernardo de Souza (Governo Simon), além do Palácio Piratini (Governos Antônio Britto e Germano Rigotto), na Presidência da Assembleia Legislativa do RS (com os deputados Paulo Odone e Frederico Antunes), na Presidência da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (vereador Sebastião Melo) e com o deputado federal Osmar Terra. Foi assessor de Imprensa da Presidência do Tribunal de Justiça do RS. Atualmente é coordenador de Comunicação do gabinete do deputado Tiago Simon na AL-RS.

Saído no interior de uma cidadezinha do Vale do Taquari com pouco mais de 5 mil habitantes aos 17 anos me considero um privilegiado por ter feito tantas coisas, por ter conhecido inúmeros lugares interessantes e, acima de tudo, ter tido o privilégio de conviver milhares de pessoas e ter feito valiosos amigos.

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