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Tragédias Anunciadas

Gilberto Jasper

24.07.2014

Tragédias Anunciadas

            O flagelo das enchentes é uma lembrança que carrego desde a infância. Depois como repórter cobri diversos episódios de tragédias, prejuízos e desespero causados pelas cheias. Aquinhoado com uma generosa rede hídrica, formada por inúmeros rios, arroios, açudes e lagos, o Rio Grande do Sul sucumbiu ao lobby do petróleo e do asfalto e abandonou a possibilidade de baratear o transporte e poupar milhares de vidas que se perdem nas rodovias.
            A ausência de políticas públicas de longo prazo impinge castigos repetidos às populações que vivem em situação de risco. Falta vontade concreta para remover moradores ribeirinhos e impedir o retorno. Inexistem projetos para acabar com o assoreamento dos cursos d’água, bilhões são gastos a cada ano com os prejuízos da chuva.
            Estive muitas vezes em Alegrete, na Fronteira Oeste. Guardo a imagem de um campo de futebol coberto pela água, à exceção das traves horizontais das goleiras. Presenciei inundações na minha região de origem, o Vale do Taquari, onde as cabeceiras do Rio Taquari se transformam em oceanos de água doce com as fortes chuvas, alagando as partes mais baixas.
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            A cobertura de enchente mais marcante remonta ao município de Camaquã, na região Centro-Sul do RS. Era dezembro, década de 90, e o Arroio Duro espalhou desespero sem piedade ao longo de seu curso. Chegamos com sol, a água já tinha baixado. Os moradores vagavam pelas ruas para buscando pertences entre escombros, barro e entulho.
            Chegamos a uma casa de alvenaria. Um casal chorava, sentado na escada de entrada da residência, chorava abraçado. Tudo que havia dentro de casa fora levado pelas águas. Não havia sobrado absolutamente nada: móveis, eletrodomésticos, talheres, roupas, calçados. Tudo sumiu. Só havia lodo mal cheiroso misturado ao esgoto cloacal.
            Estatura baixa, moreno e com os olhos inchados, o pedreiro não continha as lágrimas, amparado pela mulher, doméstica. Contou que na segunda noite de chuva torrencial levara a filha de 4 anos para a casa da avó, num bairro distante, mais alto.                                             
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            Caminhávamos pela casa. Em cada cômodo ele mostrava o que havia.
- Aqui tinha uma tevê, a mesa de jantar ficava ali, nossa cama de casal era nova... paguei a segunda prestação ontem!” - balbuciava o trabalhador. Diante de uma parede, com a marca deixada pela água escura, ele desabou num choro convulsivo. A muito custo conseguiu falar:
            - Guardei os presentes da minha nossa filhinha em cima do roupeiro de seis portas que compramos há três meses. Não sobrou nada! Tinha uma boneca, uma bicicleta pequena e uma cozinha de brinquedo. E agora... o que a gente vai dar pra ela no Natal? – perguntava enquanto olhava para o vazio.
            Eu e o fotógrafo Antônio Pacheco mal conseguimos almoçar, sensibilizados com a história do casal que ficou apenas com a roupa do corpo. Mesmo sem perdas humanas, eles precisariam viver de favores, doações e ajuda dos outros.
            É o flagelo da enchente, tão velho quanto o Estado. Dirão que se trata dos desígnios da natureza. Mas será que não poderíamos minimizar as consequências com medidas sérias, eficientes e voltadas à proteção das pessoas?

Tags: Gilberto Jasper, jornalismo, Em Outras Palavras


Gilberto Jasper é jornalista. Trabalhou como repórter nos jornais O Alto Taquari (Arroio do Meio), O Informativo do Vale (Lajeado), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) e Zero Hora (Porto Alegre), além das rádios Independente (Lajeado) e Gazeta AM/FM (Santa Cruz do Sul). Como assessor de Imprensa atuou com o ex-secretário da Educação, Bernardo de Souza (Governo Simon), além do Palácio Piratini (Governos Antônio Britto e Germano Rigotto), na Presidência da Assembleia Legislativa do RS (com os deputados Paulo Odone e Frederico Antunes), na Presidência da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (vereador Sebastião Melo) e com o deputado federal Osmar Terra. Foi assessor de Imprensa da Presidência do Tribunal de Justiça do RS. Atualmente é coordenador de Comunicação do gabinete do deputado Tiago Simon na AL-RS.

Saído no interior de uma cidadezinha do Vale do Taquari com pouco mais de 5 mil habitantes aos 17 anos me considero um privilegiado por ter feito tantas coisas, por ter conhecido inúmeros lugares interessantes e, acima de tudo, ter tido o privilégio de conviver milhares de pessoas e ter feito valiosos amigos.

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e-mail: gilbertojasper@gmail.com
Blogger: gilbertojasper.blogspot.com.br




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