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Quando não havia videogame

Gilberto Jasper

07.08.2014

Quando não havia videogame

            Colecionar “decalques” – como se dizia no interior - era uma mania dos meus tempos de piá. Eram adesivos plásticos afixados principalmente nos carros. Lembrei disso ao observar a verdadeira obsessão de algumas pessoas em mostrar ao mundo que estiveram em Punta Del Este. A proliferação de adesivos relativos ao belíssimo balneário uruguaio vai de emissoras de rádio FM até lojas de grife.
            Também há veículos ostentando temas infantis. Algumas lembram aquelas figurinhas que a gente colocava na água para descolar o desenho principal para afixar nos cadernos, na janela ou nas pastas escolares.
            Nos “bons tempos de guri” todos tinham uma coleção de “decalcos”, além da pilha de chaveiros trocados com amigos, parentes e colegas de aula. Eu tinha uma pasta de papelão com diversos finos plásticos, transparentes – no tamanho de uma folha A4 - para afixar os adesivos. A grande aventura deste tipo de coletânea estava na arte de “roubar” plásticos colados em veículos, quase sempre colados na parte de dentro.
            Naquela época – acreditem os mais jovens! – se costumava manter os vidros baixados. Ao menos em Arroio do Meio, cidadezinha do Vale do Taquari onde nasci e passei minha juventude. Nem se sonhava com alarmes, travas ou dispositivos antifurto.
oxoxoxoxoxoxoxoxoxoxoxoxo
            Alguns adesivos eram removidos com facilidade. Bastava enfiar a mão dentro do carro, firmar a mão no vidro e, com a ajuda das unhas, remover com cuidado para não rasgar. O grande troféu da época era um adesivo do lubrificante STP, com fundo vermelho e letras em azul.
Folheando a revista Quatro Rodas via-se a marca nos carros das grandes escuderias de Fórmula-1, o que emprestava maior valor à peça.  Levei dois anos para conseguir um destes, mas jamais esquecerei dos detalhes da façanha.
              Uma Kombi branca, com placas de Porto Alegre, fazia entregas na principal rua da cidade, onde passou horas estacionada. Parecia provocação o pára-brisas traseiro ostentava quatro adesivos! E eu era o único da turma que não possuía um único exemplar!
                                              oxoxoxoxoxoxoxoxoxoxoxoxo
            Pouco depois do meio-dia vislumbrei a camioneta diante de um pequeno restaurante, com os vidros baixados. Espiei pela janela e notei que o motorista e o entregador devoravam um bife com fritas. Deixei meus pudores de lado. Me esgueirei pelo vidro traseiro da kombi para sacar o precioso objeto com sucesso.
            Apesar da ousadia, a culpa me impediu de afixar o decalco na capa da pasta que acomodava a coleção de adesivos. Só depois de uma semana tive coragem para me exibir. Além de ser rara, a peça era a única na cidade de tamanho original, igualzinha àquelas ostentadas nos bólidos das corridas européias.
            Apesar da pressão da piazada somente agora, através deste post, meus amigos saberão a origem do valioso adesivo, único na pequena cidade. Resisti às inúmeras propostas – em dinheiro vivo! – para me desfazer da raridade. Por isso, o decalco ainda repousa no interior da velha pasta de um azul desbotado.

Tags: Gilberto Jasper, jornalismo, Em Outras Palavras


Gilberto Jasper é jornalista. Trabalhou como repórter nos jornais O Alto Taquari (Arroio do Meio), O Informativo do Vale (Lajeado), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) e Zero Hora (Porto Alegre), além das rádios Independente (Lajeado) e Gazeta AM/FM (Santa Cruz do Sul). Como assessor de Imprensa atuou com o ex-secretário da Educação, Bernardo de Souza (Governo Simon), além do Palácio Piratini (Governos Antônio Britto e Germano Rigotto), na Presidência da Assembleia Legislativa do RS (com os deputados Paulo Odone e Frederico Antunes), na Presidência da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (vereador Sebastião Melo) e com o deputado federal Osmar Terra. Foi assessor de Imprensa da Presidência do Tribunal de Justiça do RS. Atualmente é coordenador de Comunicação do gabinete do deputado Tiago Simon na AL-RS.

Saído no interior de uma cidadezinha do Vale do Taquari com pouco mais de 5 mil habitantes aos 17 anos me considero um privilegiado por ter feito tantas coisas, por ter conhecido inúmeros lugares interessantes e, acima de tudo, ter tido o privilégio de conviver milhares de pessoas e ter feito valiosos amigos.

Contato:
e-mail: gilbertojasper@gmail.com
Blogger: gilbertojasper.blogspot.com.br




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