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Remington, Olivetti e o desmaio na hora da prova

Gilberto Jasper

09.12.2014

Remington, Olivetti e o desmaio na hora da prova

            Sou do tempo do curso de datilografia. Isso mesmo. Pelos idos dos anos 70/80 um vivente dificilmente estrearia no mercado de trabalho se não empunhasse um diploma deste calibre. À exceção de serviços braçais, era obrigatório ser dotado de grande destreza manual para produzir o mais simples texto. “Catar milho” – o que significa dedilhar sem o uso correto dos dedos das duas mãos, castigando o teclado apenas com os dois polegares – era mau sinal, um fracasso antecipado em uma entrevista de emprego.

            Olivetti e Remington eram marcas consagradas nas escolas de datilografia. Em Arroio do Meio, pequeno município do Vale do Taquari, onde nasci, havia um lugar disputado onde se ensinavam os truques de um bom datilógrafo. Era de propriedade de Jorge Vaz de Vasconcelos que também mantinha um renomado escritório de contabilidade que serviu de estréia de emprego para muitos jovens daquela época.

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            O uso contínuo das máquinas de escrever provocava alguns problemas. Com aulas nos três turnos era comum que os teclados provocassem “pulos”, ou seja, ao acionar a barra do espaço o equipamento provocava dois, três ou mais espaços em branco. Isso comprometia o texto final.

            Decorar, para a minha geração, era rotineiro. Por isso até hoje lembro as primeiras letras da aula de datilografia: a-s-d-f-g, acionadas com a mão esquerda. Também lembro os livros da Bíblia, as capitais européias, os ossos carpo-metacarpo-dedo ou falange-falanginha-falangeta que formam a mão, sem falar das músicas – inclusive em alemão, inglês e polonês! - que cantava naturalmente como membro dos Canarinhos do Colégio São Miguel.

            A prova final do curso de datilografia era um verdadeiro terror para da gurizada! Meia folha de “papel ofício” – hoje folha A4 – era presa com fita durex acima do teclado, que ficava coberto. As mãos, dispostas sob a folha, tremiam diante do texto que era conhecido apenas na hora do exame. O pesadelo consistia na disposição errada dos dedos sobre as teclas antes de começar a datilografar. Isso significava que todo texto seria redigido equivocadamente.

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            Outro detalhe que exigia redobrada atenção era o alinhamento do texto à direita da folha de ofício. No caso do uso de uma máquina de escrever que “pulasse”, produzindo mais do que um espaço, era impossível cumprir esta exigência. O segredo estava em adotar um ritmo para dedilhar. Fui aprovado com louvor, apesar do suor que escorria das minhas mãos e axilas e da secura da minha boca.

            Até hoje o curso de datilografia me ajuda na rotina de redigir com precisão. Observo muita gente “catando milho”, afundando o teclado com os dois polegares, Entre tantas facilidades oferecidas pelo computador, dispõem-se d modernos teclados que até corrigem textos copiados com precisão por modernas impressoras.

            É uma realidade bastante diferente dos tempos da escola de datilografia, cuja prova final causou o desmaio de uma amiga sentado ao meu lado. Levada às pressas ao Hospital São José, com suspeita de infarto, ao abrir os olhos e indagou:

            - Passei na prova?


Tags: Gilberto Jasper, jornalismo, Em Outras Palavras


Gilberto Jasper é jornalista. Trabalhou como repórter nos jornais O Alto Taquari (Arroio do Meio), O Informativo do Vale (Lajeado), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) e Zero Hora (Porto Alegre), além das rádios Independente (Lajeado) e Gazeta AM/FM (Santa Cruz do Sul). Como assessor de Imprensa atuou com o ex-secretário da Educação, Bernardo de Souza (Governo Simon), além do Palácio Piratini (Governos Antônio Britto e Germano Rigotto), na Presidência da Assembleia Legislativa do RS (com os deputados Paulo Odone e Frederico Antunes), na Presidência da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (vereador Sebastião Melo) e com o deputado federal Osmar Terra. Foi assessor de Imprensa da Presidência do Tribunal de Justiça do RS. Atualmente é coordenador de Comunicação do gabinete do deputado Tiago Simon na AL-RS.

Saído no interior de uma cidadezinha do Vale do Taquari com pouco mais de 5 mil habitantes aos 17 anos me considero um privilegiado por ter feito tantas coisas, por ter conhecido inúmeros lugares interessantes e, acima de tudo, ter tido o privilégio de conviver milhares de pessoas e ter feito valiosos amigos.

Contato:
e-mail: gilbertojasper@gmail.com
Blogger: gilbertojasper.blogspot.com.br




Opinião do internauta

  • JOSE PINTO DOS SANTOS NETO (16.12.2014 | 12.22)
    Lá pelos anos de 50, quando nos matriculávamos na I série Ginasial íamos direto fazer o curso de datilografia que funcionava na rua da Praia a Escola Remington. Esse curso foi muito útil em toda minha vida, primeiro pelos enormes trabalhos de datilografia que meu empregador exigia, depois com o advento do computador não perdeu em nada a utilidade, pelo contrário. Eu e meus irmãos, como o ilustre colunista, nunca fomos catadores de milho.
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