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Reforma do Ensino

James M. Dressler

17.07.2014

Reforma do Ensino

Já lembrei em outras oportunidades do que a educação pode fazer para transformar um país, tanto para o bem, graças a sua excelência, caso da Coréia do Sul, como para o mal, em sua falência, como já vem acontecendo no Brasil há algum tempo.

Não há como desvincular o crescimento raquítico do PIB nas últimas duas décadas do fracasso de nosso sistema de ensino. Sob o pretexto de manter os alunos na escola evitando desistências, afrouxamos de tal forma as medidas de desempenho dos alunos, que hoje em dia já é impossível repetir o ano, por pior que seja a sua avaliação. É a tal "progressão continuada". Resultado: há gente chegando ao nível superior sem sequer saber conceitos básicos de Português e Matemática, sem falar de matérias mais complexas, como Física e Química. O analfabetismo funcional se tornou um termo da moda, para rotular aqueles que apesar de lerem um texto, não conseguem transformar o que leem em idéias que o representem. Pode parecer incrível, mas isso realmente existe.

Mas então, onde é que erramos nesta área? Se analisarmos o investimento em educação, em termos de proporção do PIB, o Brasil fica entre os países que mais investem. Entretanto, esta comparação é errônea, porque quem faz esta comparação esquece que o PIB per capita do Brasil é muito inferior ao dos outros países que investem o mesmo percentual do PIB e que tem bons resultados na área. Exemplificando: o Brasil gasta 5,80% do PIB em educação, enquanto os Estados Unidos gastam 5,50%. Mas o problema é que o PIB dos EUA é sete vezes maior que o do Brasil, e a população em idade escolar no Brasil é de 30% (60 milhões de habitantes), enquanto nos EUA é de 25% (75 milhões de habitantes), o que resulta em um gasto, por aluno, mais de cinco vezes maior nos EUA do que no Brasil. Então, não há como fazer mágica: enquanto alunos aprendem em salas de aula informatizadas nos EUA, aqui ainda há muito aluno aprendendo em salas de aula improvisadas, com goteiras, sem material adequado, sem sequer terem livros atualizados, e que utilizam uma tecnologia de ensino de 50 anos atrás. Outro problema é a proporção de professores sobre o total de funcionários que trabalham em educação, que no Brasil é menor que na maioria dos países que tem um ensino melhor que o brasileiro. Isso demonstra que temos uma infraestrutura ineficiente e custosa, que desperdiça os já escassos recursos da área. Mesmo dentro do Brasil, há discrepâncias enormes nesta proporção de estado para estado, com alguns estados com uma proporção aceitável, como Paraná, e outros nem tanto, como Rio Grande do Sul. E somando-se a isso tudo, a tal "progressão continuada", que desestimula qualquer esforço para que os alunos procurem aprender mesmo nestas condições adversas.

Fica claro, então, por que só exportamos matéria-prima e muito poucos produtos industrializados. Apesar de todos os problemas do país, desde a tributação exagerada da produção, baixa produtividade do nosso trabalhador (com tal sistema de ensino, não surpreende!), passando pela infraestrutura deficiente, será que temos profissionais qualificados para agregar valor aos nossos produtos aqui dentro? Resultado do sistema de ensino que temos, é evidente que não. E não adianta falar que aqui ou ali temos algum oásis tecnológico, isso não é suficiente perto dos batalhões de profissionais qualificados que existem em países desenvolvidos e mesmo em outros países já na nossa frente, como a Coréia e China, e que, além disso, trabalham por bem menos que os nossos.

Precisamos de uma revolução, que tem que começar pelo ensino de base, da escola primária até a escola secundária, porque não se constrói um bom profissional a partir de uma base deficiente. Temos que investir, num primeiro momento, nesta fase preparatória e, à medida que os anos passarem, irmos também preparando o ensino superior para receber esta nova geração de alunos mais qualificados. E no que esta revolução deve se constituir? Escolas de turno integral, melhoria dos currículos disciplinares e dos métodos de ensino, informatização, racionalização administrativa e melhorias de salário para os professores. Fica claro que o investimento tem que ser maior, proporcionalmente, que o de países que já tem um bom sistema educacional, porque temos que tirar o atraso. E sim, como vamos entregar melhores condições aos alunos, temos que voltar a cobrar desempenho deles, só deve passar de ano quem aprende. E sim, os professores devem ser promovidos pelos resultados que obtém, a meritocracia tem que ser implantada para recompensar quem imprime uma melhor qualidade enquanto está ensinando.

E lembro também de que nada adiantarão cotas, se é que não piorarão este quadro, haja vista que estaremos colocando os menos preparados à frente dos mais preparados nas vagas insuficientes que temos nas universidades. O resultado, com absoluta certeza, não poderá ser melhor que os resultados que já tínhamos atingido antes de criarmos as cotas, seja qual for o critério que as define. O correto, como já salientei, é investir muito mais em educação, de forma que as cotas não tenham o menor sentido, porque haverá vagas suficientes para todos e a qualidade da educação será de boa para ótima. E aí, como já acontece hoje nos EUA, os melhores alunos acabarão nas melhores universidades e os menos brilhantes ocuparão as vagas nas universidades médias, mas ainda assim com bons cursos, e que permitirão uma preparação profissional adequada.

Terá que ser uma transformação lenta e gradual, e que trará seus melhores frutos daqui 15 anos ou mais. Agora, até devemos fazer melhorias pontuais no ensino secundário e superior, mas os resultados serão sempre prejudicados por alunos que já tem deficiências adquiridas no ensino básico.

Se nada mudar agora (e demorarão décadas para fazer efeito), nos restará, então, olhar os outros carros desta "corrida" se distanciarem, enquanto ficamos cada vez mais para trás. Isso quando não começarmos a vê-los já pelo retrovisor, querendo nos dar uma volta em cima. E alguns até a uma segunda volta!

Agora, você pode me perguntar se eu acredito que qualquer mudança nesta área educacional vai acontecer nesta ou na próxima década. Respondo que eu não tenho a menor ilusão. Falta dinheiro. Quem tem acompanhado a série de colunas que venho escrevendo nas últimas semanas, já se deu conta que desperdiçamos dinheiro demais em outras áreas. Só o que gastamos anualmente para cobrir o rombo da previdência social atinge 120 bilhões de reais (quando alguém diz que não há rombo, é porque ele soma a contribuição dos trabalhadores e a dos patrões (públicos e privados) mais as "contribuições" que todos pagamos, na realidade, impostos disfarçados sobre produtos e serviços. Somando-os, a conta fecha, senão os aposentados não estariam recebendo em dia, certo?). Some-se a isso a imensa e ineficiente máquina pública, as inúmeras estatais e os juros da dívida pública, e temos a receita de um desastre. Então, para começarmos a resolver o problema do ensino no país, antes temos que começar a resolver estes outros problemas que asfixiam as contas públicas. Muito se tem falado do pré-sal, que seria o nosso “bilhete premiado” que permitiria custear saúde e educação de primeiro mundo. Para mim, é uma loteria, de destino incerto. O mais seguro é seguir as receitas de países que já fizeram a sua revolução na educação, mesmo sem ter uma gota de petróleo para extrair.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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